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Outros

O fenômeno urbano e as origens do planejamento urbano

geography8.gif Saturday, 13 June 09 - 08:25 AM (GMT -04:00)
By Master Santucci in Geografia

Hindenburgo Francisco Pires

1. Considerações sobre o surgimento do fenômeno urbano

A principal característica do fenômeno urbano é a primazia do urbano per se sobre o rural (VELHO, 1973), esta condição ocorreu impulsionada pela Revolução Industrial, entre séculos XVIII e XIX, decorrente de vários fatores: o desaparecimento progressivo do campesinato; o aumento do número de trabalhadores nas cidades (proletariado), e formação de uma mão-de-obra com escolaridade comum e qualificada para trabalhos simples; o movimento de migração de populações do campo para a cidade; avanço nas tecnologias de produção de alimentos; o constante crescimento das cidades, e com isso a constituição de um forte mercado interno, maior escoadouro para os produtos do país (HOBSBAWM, 2003); estruturação também de um mercado externo mais dinâmico e seguro, propício à acumulação de capitais. Ou seja, a formação do fenômeno urbano nas grandes cidades industriais do século XIX, pode ser explicada por uma conjugação de fatores endógenos e exógenos.

A causa deste processo foi à consolidação das economias de mercado nas grandes cidades e posteriormente do capitalismo industrial, fruto da expansão do comércio e da circulação global de mercadorias.

O crescimento das cidades e a expansão sem precedentes da urbanização, nos países ricos do hemisfério norte, constituíram a base e princípio do que chamamos de economias-mundo, este acontecimento passou a ser objeto de estudos de historiadores, geógrafos, economistas, urbanistas, sociólogos e antropólogos.

O processo acelerado da urbanização acarretou uma série de problemas urbanos que afetou a dinâmica das cidades. Populações amontoavam-se nas grandes cidades oriundas do campo e de diversas localidades.

 

1.1. As origens da Cidade Industrial

Os processos que desencadearam a Primeira Revolução Industrial na Inglaterra a partir da segunda metade do século XVIII são complexos, ou seja, a origem desse evento não é simples. Em primeiro lugar, o acontecimento não foi resultado de uma mera aceleração do crescimento econômico, mas uma aceleração do crescimento urbano em virtude da transformação econômica e social. Em segundo lugar, não começou do zero e não podemos deixar de apontar outras fases anteriores de rápido desenvolvimento industrial e tecnológico. Todos esses elementos a serem destacados contribuíram para que a Inglaterra ingressasse preparada na industrialização (HOBSBAWM, 2003).

As cidades industriais são um imbricado histórico, sua lógica espacial constitui uma totalidade de relações (culturais, políticas, econômicas e sociais), constituída através de uma longa duração, na qual a parte dominante dessas relações pode influir na determinação de suas características estruturais, ou seja, esta representa expressão material do modo de vida e de produção da sociedade através do trabalho social acumulado.

Neste sentido, as relações espacializadas ou espaciais articulam-se como atributos e com atributos de outros lugares, e seus espaços de produção passam a ser limites ou momentos do processo produtivo, onde interagem relações específicas e modos de produção que estruturam e definem sua forma.

As relações sociais que se desenvolvem nas cidades industriais tenderam a reproduzir o conteúdo da centralidade impingida pelo trabalho geral da sociedade, pois a cidade é o locus histórico do processo produtivo. Seu sítio contém a materialidade do trabalho acumulado por gerações anônimas de indivíduos e sua centralidade é a expressão da inerência grandiosa da obra do trabalho coletivo da sociedade.

As cidades industriais são também, em aparência, o espaço da socialização da produção social e, na essência a base contraditória do fenômeno urbano; no primeiro sentido, condição geral e base material de realização da produção social; no segundo, o "laboratório" conflituoso do processo de acumulação do excedente social.

Como o trabalho social é apropriado de maneira privada, sua convertibilidade social torna-se complexa, assim o Estado ajuíza e "regula" os interesses dos membros da sociedade, impondo deveres indistintamente a todos os cidadãos (pobres ou ricos) que permitam a realização das condições gerais de produção, o processo de acumulação e expropriação do trabalho social no espaço.

As contradições sociais resultam do processo de apropriação privada da cidade, enquanto meio de produção e força produtiva do trabalho social, e da sua subordinação aos interesses privados de alguns membros da sociedade.

A ruptura entre as relações campo e cidade, no início do século XIX, foi impulsionada com o aumento do emprego de tecnologias manufatureiras, na cidade, e pelo alargamento do mercado de sua produção de mercadorias e crescimento da produtividade do trabalho nas indústrias.

A cidade industrial se transformou no "laboratório" do processo de produção capitalista. A inevitabilidade do urbano passou a ser a inevitabilidade lógica da ascensão do modo de produção capitalista. O domínio e o aperfeiçoamento da produção na unidade fabril precipitaram a produção da esfera local para outras "escalas espaciais" de mercado. A progressão da produção ampliou-se da disputa intraterritorial para a interterritorial.

 

1.2. A formação das grandes metrópoles contemporâneas

Com o aumento da produção fabril, a cidade industrial conseguiu ampliar o conteúdo de sua centralidade, constituindo as metrópoles, expressão contraditória da influência de sua produção (econômica, cultural e política) em relação a outras cidades e ao campo.

Nos séculos XIX e XX, a força motriz da centralidade da cidade industrial foi à produção fabril ou manufatureira, que transformou o trabalho artesanal de sujeito e suporte do processo produtivo em mero apêndice ou acessório vivo.

A estrutura territorial de acumulação da cidade industrial se caracterizou pela espacialização e especialização do processo produtivo assentado na divisão territorial do trabalho. O pressuposto da produção foi, além da obtenção do lucro e de mais-valia, a expansão da produtividade, diminuição dos preços dos produtos e salários, redução do emprego (trabalho vivo) e da participação dos trabalhadores na concepção do sistema produtivo, seu crescimento em massa e aumento da competitividade.

Dentro dos padrões de acumulação que fizeram surgir à cidade industrial, "o estágio mais avançado da sociedade industrial é o estágio do consumo de massa". A verticalização, a densificação e a segmentação do consumo nas cidades industriais, produzidas pelas redes oligopolizadas de produção, distribuição e comercialização, criaram as megametrópoles, que representam a expressão mais contundente alcançada pelo poder de concentração e centralização exercido pela cidade industrial.

As mudanças tecnológicas alteraram as relações espaciais entre os lugares, entre as cidades e seus espaços produtivos. A utilização da informática, das telecomunicações e do sensoriamento remoto (com imagens espectrais dos satélites), favoreceu a metropolização, mundialização e a globalização das relações econômicas e sociais, produzidas pela cidade industrial, o que ampliou as possibilidades de trocas, os fluxos de informações e conhecimento (saber-fazer).

Mas, as iniciativas de "regulação" pelo Estado através do planejamento, nos problemas advindos da formação das "economias de aglomerações" (as cidades), tendem a gerar novas formas de realização da acumulação e de reprodução do capital. O planejamento burguês tende a manter as condições gerais de acumulação, em detrimento das condições gerais de reprodução social. Esta é a contradição básica das ações estatais implementadas através do planejamento.

 

2. Planejamento Urbano e Gestão Urbana: Qual é a diferença?

 

No item anterior, procuramos explicar a emergência do fenômeno urbano no século XIX. Nesta parte de nosso curso, iremos discutir o que entendemos sobre planejamento urbano e gestão urbana.

 

2.1. Alguns estudos sobre os conceitos de planejamento urbano e gestão urbana

Existe um conjunto de obras que constituem o que chamamos de legado dos estudos históricos sobre o planejamento urbano, nem sempre este é composto por pesquisadores genuinamente vinculados à área de Geografia, este aspecto interdisciplinar pode enriquecer e contribuir para que se ampliem as perspectivas metodológicas dos estudos sobre a história contemporânea do planejamento urbano.

Indicaremos algumas obras que consideramos primordiais para uma pesquisa inicial sobre a história do planejamento urbano, principalmente nesta parte que trata de aspectos conceituais:

 

    * CASTELLS, Manuel. O planeamento urbano (Item 5). In: Problemas de Investigação em sociologia urbana. Lisboa: Presença, 1986, p. 209-250.

    * MELLOR, J. Rosemary. A prática do planeamento urbano (Primeira Parte, Item 4). In: Sociologia Urbana. Porto, Rés, 1984, p. 211-274.

    * SOUZA, Marcelo. Os conceitos de planejamento urbano e gestão urbana (Parte I). In: Mudar a cidade: uma introdução crítica ao planejamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000, p.45-59.

    * LOJKINE, Jean. Política urbana e planificação urbana (Capítulo III). In: O estado capitalista e a questão urbana. São Paulo: Martins Fontes, 1981, p.175-219.

 

2.2. As Origens do Planejamento Urbano no Século XIX

Como já havíamos tratado anteriormente, foi durante o século XIX que se constatou as primeiras iniciativas deliberadas de Planejamento. O movimento do planejamento mais conhecido foi o "The garden city movement", fundada em 1898 por Ebenezer Howard, no Reino Unido. Este movimento se caracterizou por criar importantes "Cidades Jardins", que tinham como por objetivo oferecer áreas residenciais rodeadas por cinturões verdes, separadas de forma equilibradas das áreas industriais e agrícolas. Howard, inspirado por ideais utópicos organizou a "The Garden City Association", em 1899, com o objetivo de criar duas cidades na Inglaterra: Letchworth Garden City, em 1903, e Welwyn Garden City, em 1920. Este dois projetos são o testemunho do sucesso empreendido pelo movimento de criação das "Cidades Jardins".

Segundo Rosemary Mellor, a Grã-bretanha reunia as condições ideais para o surgimento do movimento pela criação das Cidades Jardins:

O movimento do planejamento da cidade pode ser datado dos últimos anos do século dezenove. The Garden City Association, mais tarde the Town and Country Planning Association foi fundada em 1899. Havia um senso de que a velha ordem chamava por mudança, que o avanço técnico e o sucesso comercial não tinha trazido prosperidade e felicidade para todos e que intencionais iniciativas tinham de ser tomadas pela opinião informada para efetuar uma reconstrução organizada da sociedade. O movimento do planejamento da cidade era um pequeno grupo de pressão tirando apoio das profissões (principalmente arquitetos, agrimensores e engenheiros, os três elementos que apoiaram a fundação do Town Planning Institute em 1913), com pequena massa de apoio. As suas mais estreitas ligações eram com outros grupos, tais como os Fabians, a Sociological Society e o National Housing Reform Council (fundado em 1900). Todos estes procuravam fornecer idéias a "homens de influência" e permaneciam afastados da violenta e súbita mudança social do período anterior e posterior à Primeira Guerra Mundial.

A Grã-Bretanha, então, era a sociedade mais bem organizada do mundo: apenas 10 por cento da força do trabalho permanecia no campo e completamente 80 por cento da população residia em áreas definidas como cidades. E mesmo em comparação com outras sociedades, poderes de controle sobre o desenvolvimento urbano permaneceram mínimos. (MELLOR, 1984, p.211)

O planejamento na Grã-bretanha representou uma reação ao crescimento desordenado das cidades industriais enquanto grandes economias de aglomeração. As idéias do "The Garden City Movement" foram rapidamente assimiladas nas América do Norte e do Sul.

 

2.3. Os conceitos de planejamento urbano, gestão urbana e governança urbana

Em razão do grande uso efetuado desses termos, torna-se crucial elucidar e estabelecer a diferença existente entre os conceitos de planejamento, gestão, governo, gerência e governança.

A palavra planejamento é comumente empregada como sinônimo de planificação, em Portugal o correlato do termo é planeamento. A expressão planejamento nas línguas anglo-saxônicas aparece como "planning".

Planejar significa antever processos futuros, prognosticar a evolução de tendências, elaborar um plano ou um programa com o objetivo de coordenar ações preventivas ou necessárias contra os efeitos do crescimento territorial desordenado da acumulação capitalista e da urbanização, ou seja, o planejamento pode ser implementado nas escalas territorial, regional e urbano.

Segundo Marcelo Souza (2002, p.45), a partir da segunda metade dos anos 80, a expressão gestão passou a ser utilizada em diferentes campos do saber como "sucedâneo" do termo planejamento. 1

Ao explicar a diferença entre planejamento e gestão, Marcelo Souza argumenta:

    Planejamento e gestão não são termos intercambiáveis, por possuírem referenciais temporais distintos e, por tabela, por se referirem a diferentes tipos de atividades. Até mesmo intuitivamente, planejar sempre remete ao futuro: planejar significa tentar prever a evolução de um fenômeno ou, para dizê-lo de modo menos comprometido com o pensamento convencional, tentar simular os desdobramentos de um processo, com o objetivo de melhor precaver-se contra prováveis problemas ou, inversamente, com o fito de melhor tirar partido de prováveis benefícios. De sua parte, gestão remete ao presente: gerir significa administrar uma situação dentro dos marcos dos recursos presentemente disponíveis e tendo em vista as necessidades imediatas. O planejamento é a preparação para a gestão futura, buscando-se evitar ou minimizar problemas e ampliar margens de manobra; e a gestão é a efetivação, ao menos em parte (pois o imprevisível e o indeterminado estão sempre presentes, o que torna a capacidade de improvisação e a flexibilidade sempre imprescindíveis), das condições que o planejamento feito no passado ajudou a construir. Longe de serem concorrentes ou intercambiáveis, planejamento e gestão são distintos e complementares ...Um desafio que se coloca de imediato, ao se debruçar sobre a tarefa de planejar, é o de realizar um esforço de imaginação do futuro. Não deve haver sombra de dúvida quanto ao fato de que o planejamento necessita ser referenciado por uma reflexão prévia sobre os desdobramentos do quadro atual - ou seja, por um esforço de prognóstico. Não há ação, muito menos ação coletiva coordenada, que possa prescindir disso. Descurar indiferenciadamente a importância do planejamento, alegando, dentre outras coisas, que não se pode predizer o futuro, trai uma irresponsabilidade típica da atitude livresca e diletante, em que o comprometimento com a ação transformadora é, quando muito, puramente retórico. (SOUZA, 2002, 45-46)

Dentre as expressões mais usuais neste curso, a gestão urbana é aqui conceituada como um processo de concepção, decisão, intervenção, regulação, mediação, que se desenvolve no espaço em função do embate ou conflito entre os diferentes atores sociais. Portanto, dentro dessa conceituação, a gestão urbana se constitui num processo que configura ou condensa, material e historicamente, as relações de forças dos grupos sociais representados politicamente no Estado e estabelecidos economicamente no espaço. Logo, a gestão urbana não é uma função ou incumbência de um grupo restrito de políticos ou de administradores, não é uma estrutura estanque configurada por algumas agências ou instituições governamentais. Também não é um sistema, dado às múltiplas relações dialéticas que o define enquanto processo nos variados contextos históricos; nem um processo cuja ocorrência se restrinja apenas á dimensão meramente superestrutura! da formação social, ou se constitui num conjunto de práticas definidas apenas para reproduzir e consubstanciar a infra-estrutura ou a base econômica e material da sociedade capitalista (PIRES, 1988, p.02-06).

Nesse sentido os enunciados teóricos da expressão gestão urbana, acima desenvolvidos, se aproximam do conceito estabelecido por Marques et alii (1986, p.18) que a evidencia enquanto "política-administrativa de condução das intervenções e mediações relativas aos diferentes interesses dos agentes sociais presentes contexto das contradições metropolitanas...".

Entretanto, segundo a acepção acima, a gestão não deve ser concebida apenas como: "... um conjunto de atividades prioritárias, definição de metas, alocação de recursos, etc, para o planejamento e funções operacionais..."(WELLAR, 1976:9)

Esta diferença é aqui estabelecida em função dos pressupostos definidos á investigação dos processos reais existentes numa dada formação social, não negligenciando a importância das contradições presentes entre os atores sociais em questão, nem os aspectos políticos que definem as formas de gestão no espaço.

Para Wilheim (1982, p.137) é preciso estabelecer a diferença entre os significados dos termos "governar" e "administrar" para se poder definir o conceito de gestão com mais propriedade, segundo o autor:

...Convém inicialmente diferençar e precisar os termos "governar" e "administrar", ambas atividades necessárias á gestão urbana, pois enquanto se governa uma cidade o que se administra é apenas a máquina burocrática de sua Prefeitura. Assim "governar" é mais do que administrar; significa conter, interpretar anseios da população, e abrange a proposição de metas socialmente desejáveis, ecologicamente prudentes e economicamente viáveis; governar significa estabelecer vetores e estratégias políticas apontando para essas metas e, finalmente, articular e negociar com diversos agentes sociais cujos interesses são conflitantes, a fim de conduzir transformações urbanas ao longo dos vetores acima.

Já "administrar" significa articular os recursos humanos, financeiro e informativos de que dispõe a Prefeitura, a fim de maximizar a sua eficiência e de produzir a eficácia necessária para instrumentar a. estratégia estabelecida em sua ação de governar.

O conceito de gestão urbana aqui desenvolvido abrange os atos de administrar e governar, envolve de maneira combinada os dois significados enquanto processos complementares e interatuantes no espaço.

A maioria das tentativas de conceituação do termo gestão têm em comum, entre os autores, a dificuldade conceitual de estabelecer a distinção entre este conceito e o significado do termo gerência. A diferença principal existente entre os dois termos pode ser evidenciada a partir do campo de atuação e abrangência de ambos os conceitos. A gestão é um processo cujo nível de atuação se desenvolve no âmbito dos conflitos e contradições que abrangem a reprodução da base material da sociedade civil como um todo entendendo-se sociedade civil enquanto palco do embate da luta política e expressão da ideologia e de seu opostos também, como cenário da legitimação dos diferentes atores sociais, ou de sua transgressão no modo de produção capitalista (NASCIMENTO, 1984:3).

A gestão urbana abarca aspectos sociais e relações políticas e econômicas, cujos conteúdos e elementos influenciadores se constituem e se configuram historicamente no território e fora dele. A contribuição de inúmeras gestões urbana para a execução das diretrizes básicas da geopolítica no território, foi a de vincular politicamente o espaço, enquanto dimensão de reprodução da sociedade e suas relações contraditórias, ao poder do Estado autoritário e suas instituições; exorcizando ideologicamente os anseios das lideranças organizadas da população dos processos decisórios de gestão.

Sem embargo, o termo gerência possui um sentido mais circunscrito ao nível de atuação institucional ou organizacional, cujo universo de abrangência não consegue ultrapassar os limites territoriais corporificados pela organização e seu mercado; è a capacidade de produção e concorrência monopólica ou oligopólica que influencia os procedimentos de gerência e planejamento organizacional (GALBRAITH, 1983, p.32). Embora os dois termos possuam conceituação distinta, se relacionam na dinâmica global do processo histórico das formações sociais, pois as mudanças organizacionais produzidas pelas novas formas de gerência condicionam as formas de gestão, que tendem a refletir as exigências de infra-estrutura e de condições básicas, para efetiva reprodução do processo de acumulação capitalista. Logo, a diferença entre esses conceitos não pressupõe dissociabilidade, mas complementaridade e singularidade (DELEUZE, 1974, p.06).

O termo gestão significa regular ou administrar o contraditório, ou seja, mediar as relações sociais e as condições gerais de produção e de reprodução, a partir de condições específicas às vezes limitadas de recursos e possibilidades.

Enquanto o termo gestão implica em regulação, o termo gerência implica em controle. Quando tratamos de gerência de estoques não estamos lidando apenas com a regulação do mesmo, a gerência implica no controle de entrada e saída. Gerir uma usina nuclear representa manter controles rígidos de processos de segurança e prevenção, não deve haver falhas. Portanto, os termos gestão e gerência são também distintos e complementares.

Manuel Castells (1984, p.209-210) considera que o surgimento do planejamento urbano está, de um certo modo, atrelado às sociedades industriais avançadas e ao agravamento dos "problemas urbanos, isto é, processos sociais de consumo coletivo". Mas, tal como os críticos do Planejamento, considera-o como uma ideologia, voltada para atuar de maneira deliberada e consciente, através de planos, programas e declarações políticas para promover a ação POLÍTICA e privada, que tem objetivos preestabelecidos em relação às áreas que são objetos de interesses do sistema de atores urbanos.

Jean Lojkine crítica a pressuposição de Castells de que o planejamento urbano não pode ser reduzido à política urbana. Segundo Lojkine:

Não negamos em absoluto o efeito ideológico e jurídico sobre os agentes sociais (que concorrem para a urbanização) que têm os documentos de urbanismo e, mais amplamente, o conjunto das opções espaciais - regulamentos de ocupação do solo - reagrupados sob o nome de "planificação urbana". Mas, como aliás é notado por F. Godard e M. Castells no último livro citado, é a partir das intervenções públicas reais sobre as contradições urbanas... que se pode "perceber o sentido dos diferentes documentos de urbanismo".

Mas, para nós, o "produto" que é a política urbana - produto de contradições urbanas, de relações entre diversas forças sociais opostas quanto ao modo de ocupação ou de produção do espaço urbano - não pode ser reduzido à "planificação urbana". Ele se compõe de três dimensões:

   1. Uma dimensão "planificadora".

   2. Uma dimensão "operacional", que é o conjunto das práticas reais pelas quais o Estado central e os aparelhos estatais locais intervêm financeira e juridicamente na organização do espaço urbano.

   3. Uma dimensão propriamente urbanística que condensa, materializa e mede, por isso mesmo, os efeitos sociais - no espaço - do par planificação urbana/operações de urbanismo.

A hipótese que formulamos de uma política urbana coerente não remete portanto nem à suposta existência de uma "vontade" (que seria o poder de Estado ou um indivíduo particular) ou de uma decisão, nem à de um "projeto" - materializado por um plano e realizado por um conjunto de práticas estatais coercitivas. (LOJKINE, 1981, p. 180-181)

Em sua crítica a Manuel Castells, Lojkine considera três dimensões da política urbana atuando de maneira combinada na elaboração do planejamento, e não acredita que o planejamento urbano seja produto da política, de pessoas ou o resultado de uma vontade do Estado.

Diferentemente de planejamento, gestão e gerência, o termo Governança, introduzido no final dos anos 80, passou a ser usado com sucedâneo do termo planejamento integrado. A intenção era substituir os instrumentos de ordenamento e de mediação dos governos exercidos pelas antigas fundações de desenvolvimento das regiões metropolitanas (espaços "mesourbanos"), criadas durante o regime autoritário, período este em que estas fundações desempenhavam o papel de garantir a governabilidade em espaços supramunicipais.

Ribeiro & Pinto (2007, p. 197-199) nos fornecem uma explicação profundamente esclarecedora que amplia a nossa concepção sobre o conceito de Governança Urbana:

    ...Usando o conceito adotado por (Christian) Lefévre, governança é a capacidade das áreas metropolitanas para estabelecerem ferramentas, mecanismos, instrumentos e ordenamentos para que sejam governáveis. Para o autor, governabilidade é o estado de um território onde é possível executar políticas públicas e ações coletivas capazes de resolver problemas e contribuir para seu desenvolvimento.

A caracterização dos diversos modelos de governança metropolitana varia entre autores, conforme os atributos destacados. (Jeroen) Klink parte dos critérios usuais na teoria econômica para avaliar marcos institucionais - eficiência e eqüidade -, e agrega o atributo de voz (voice) para comparar experiências. A partir desses três critérios, distingue dois grandes tipos de estrutura de governança metropolitana: as que caracterizam pela fragmentação e as consolidadas. As estruturas consolidadas seriam preferíveis onde se valorizassem mais os quesitos de eficiência e eqüidade: permitiriam captar economias de escala e minimizar externalidades, além de melhor distribuírem ônus e benefícios da provisão de serviços públicos por toda a área metropolitana. As estruturas fragmentadas, por outro lado, propiciariam voz aos cidadãos, pela maior transparência e prestação de contas. A construção de uma boa governabilidade metropolitana não se resume à mudanças rápidas, que visem a implantar sistemas de planejamento e gestão metropolitanas com eficiência e eqüidade. As mudanças têm forte conteúdo político e requerem o envolvimento das partes interessadas desde o início do processo (KLINK, 2003:5-7)

Lefévre distingue duas grandes categorias de governança: a que se produz a partir da construção institucional e a governança por meio de arranjos que, embora não se constituam como unidades de governo local, formalizam-se por meio de procedimentos precisos e instrumentos específicos de cooperação.

Os modelos de governança por construção institucional podem compreender arranjos supramunicipais, normalmente com definição de um novo escalão de governo independente das unidades locais.

Os modos de governança não-institucional podem ser divididos em duas categorias. A primeira lida com estruturas existentes em áreas metropolitanas em que não há instituição metropolitana, sendo as políticas públicas desenvolvidas por órgãos mono ou pluri-setoriais, mas infra-metropolitanos. A cooperação visa a superar essas limitações...O segundo modo diz respeito a instrumentos específicos desenvolvidos por diferentes países para a coordenação de políticas e cooperação entre atores públicos. São acordos formalizados com restrições setoriais e alcance espacial limitado.

As estruturas de governança porventura existentes em regiões metropolitanas estão em descompasso com a complexidade crescente das funções a desempenhar, não apenas no Brasil e em países latino americanos em geral, mas mesmo em países membros da OCDE. Em extenso relatório sobre o tema da governança metropolitana, a OCDE considerava lentos os progressos na direção de melhores estruturas de governança, devido a diferenças de opinião fortemente enraizadas sobre natureza e extensão das reformas institucionais e financeiras requeridas. E destacava, entre os obstáculos a vencer, a fragmentação administrativa, que resultava em desconexão entre os territórios administrativo e funcional, as pressões sobre a capacidade fiscal e financeira das autoridades constituintes de regiões metropolitanas e a falta de transparência dos processos decisórios e de responsabilização sobre os impactos das ações resultantes (OCDE, 2001:12).

Com base na leitura deste módulo, responda a questão: qual é a diferença entre planejamento urbano, gestão urbana e governança urbana?

 

LEITURA COMPLEMENTAR:

DELEUZE, Gilles. Lógica do Sentido. São Paulo: Editora Perspectiva, 1974.

GALBRAITH, John Kenneth. O Novo Estado Industrial. São Paulo: Editora Pioneira, 1983, 7ª Edição.

HOBSBAWM, Eric J. Da Revolução Industrial inglesa ao imperialismo. 5 ed. Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária, 2003, pp. 23-52.

MARQUES, Jaime Alberto & NUNES, Brasilmar Ferreira et al. O Planejamento Urbano e os Conflitos Urbanos. Recife: UFPE/Ministério d Desenvolvimento Urbano/FIDEM, 1986.

NASCIMENTO, Elimar Pinheiro. Estado e Movimentos Sociais Urbanos no Nordeste. Recife: Sudene, 1985.

PIRES, Hindenburgo Francisco. Gestão Urbana e Tecnologia da Informação: A Contribuição da Tecnologia de Informática - Recife (1979/87). Recife: MDU/UFPE, Dissertação de Mestrado,1988.

RIBEIRO, Luiz César de Queiroz & SANTOS JR, Orlando Alves dos (org.). As Metrópoles e a Questão Social Brasileira. Rio de Janeiro: Editora Revan - Observatório das Metrópoles, 2007.

SOUZA, M. L. Da crítica do planejamento urbano a um planejamento urbano crítico. In: Souza, M. L. Mudar a cidade [uma introdução crítica ao planejamento e à gestão urbanos]. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.

VELHO, Otávio Guilherme (org.) O Fenômeno Urbano, Rio de Janeiro: Zahar Editores,1973.

WILHEIM, Jorge. Prometo São Paulo. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1982, 2ª Edição.

WELLAR, Barry. Information Technology and Urban Governance. Ottawa: Ministry of State for Urban Affairs, 1976.

Fonte - Lista de Geografia

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Hidrografia do Brasil

geography8.gif Saturday, 16 August 08 - 08:34 PM (GMT -04:00)
By Master Santucci in Geografia
O Brasil é dotado de uma vasta e densa rede hidrográfica, sendo que muitos de seus rios destacam-se pela extensão, largura e profundidade. Em decorrência da natureza do relevo, predominam os rios de planalto que apresentam em seu leito rupturas de declive, vales encaixados, entre outras características, que lhes conferem um alto potencial para a geração de energia elétrica. Quanto à navegabilidade, esses rios, dado o seu perfil não regularizado, ficam um tanto prejudicados. Dentre os grandes rios nacionais, apenas o Amazonas e o Paraguai são predominantemente de planície e largamente utilizados para a navegação. Os rios São Francisco e Paraná são os principais rios de planalto.

De maneira geral, os rios têm origem em regiões não muito elevadas, exceto o rio Amazonas e alguns de seus afluentes que nascem na cordilheira andina.

 

Em termos gerais, como mostra o mapa acima, pode-se dividir a rede hidrográfica brasileira em sete principais bacias, a saber: a bacia do rio Amazonas; a do Tocantins - Araguaia; a bacia do Atlântico Sul - trechos norte e nordeste; a do rio São Francisco; a do Atlântico Sul - trecho leste; a bacia Platina, composta pelas sub-bacias dos rios Paraná e Uruguai; e a do Atlântico Sul - trechos sudeste e sul.

Bacia do rio Amazonas

Em 1541, o explorador espanhol Francisco de Orellana percorreu, desde as suas nascentes nos Andes peruanos, distante cerca de 160 km do Oceano Pacífico, até atingir o Oceano Atlântico, o rio que batizou de Amazonas, em função da visão, ou imaginação da existência, de mulheres guerreiras, as Amazonas da mitologia grega.

Este rio, com uma extensão de aproximadamente 6.500 km, ou superior conforme recentes descobertas, disputa com o rio Nilo o título de mais extenso no planeta. Porém, em todas as possíveis outras avaliações é, disparado, o maior.

Sua área de drenagem total, superior a 5,8 milhões de km2, dos quais 3,9 milhões no Brasil, representa a maior bacia hidrográfica mundial. O restante de sua área dividi-se entre o Peru, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana e Venezuela. Tal área poderia abranger integralmente o continente europeu, a exceção da antiga União Soviética.

O volume de água do rio Amazonas é extremamente elevado, descarregando no Oceano Atlântico aproximadamente 20% do total que chega aos oceanos em todo o planeta. Sua vazão é superior a soma das vazões dos seis próximos maiores rios, sendo mais de quatro vezes maior que o rio Congo, o segundo maior em volume, e dez vezes o rio Mississipi. Por exemplo, em Óbidos, distante 960 km da foz do rio Amazonas, tem-se uma vazão média anual da ordem de 180.000 m3/s. Tal volume d'água é o resultado do clima tropical úmido característico da bacia, que alimenta a maior floresta tropical do mundo.

Na Amazônia os canais mais difusos e de maior penetrabilidade são utilizados tradicionalmente como hidrovias. Navios oceânicos de grande porte podem navegar até Manaus, capital do estado do Amazonas, enquanto embarcações menores, de até 6 metros de calado, podem alcançar a cidade de Iquitos, no Peru, distante 3.700 km da sua foz.

O rio Amazonas se apresenta como um rio de planície, possuindo baixa declividade. Sua largura média é de 4 a 5 km, chegando em alguns trechos a mais de 50 km. Por ser atravessado pela linha do Equador, esse rio apresenta afluentes nos dois hemisférios do planeta. Entre seus principais afluentes, destacam-se os rios Iça, Japurá, Negro e Trombetas, na margem esquerda, e os rios Juruá, Purus, Madeira, Tapajós e Xingu, na margem direita.

Bacia do rio Tocantins - Araguaia

A bacia do rio Tocantins - Araguaia com uma área superior a 800.000 km2, se constitui na maior bacia hidrográfica inteiramente situada em território brasileiro. Seu principal rio formador é o Tocantins, cuja nascente localiza-se no estado de Goiás, ao norte da cidade de Brasília. Dentre os principais afluentes da bacia Tocantins - Araguaia, destacam-se os rios do Sono, Palma e Melo Alves, todos localizados na margem direita do rio Araguaia.

O rio Tocantins desemboca no delta amazônico e embora possua, ao longo do seu curso, vários rápidos e cascatas, também permite alguma navegação fluvial no seu trecho desde a cidade de Belém, capital do estado do Pará, até a localidade de Peine, em Goiás, por cerca de 1.900 km, em épocas de vazões altas. Todavia, considerando-se os perigosos obstáculos oriundos das corredeiras e bancos de areia durante as secas, só pode ser considerado utilizável, por todo o ano, de Miracema do Norte (Tocantins) para jusante.

O rio Araguaia nasce na serra das Araras, no estado de Mato Grosso, possui cerca de 2.600 km, e desemboca no rio Tocantins na localidade de São João do Araguaia, logo antes de Marabá. No extremo nordeste do estado de Mato Grosso, o rio dividi-se em dois braços, rio Araguaia, pela margem esquerda, e rio Javaés, pela margem direita, por aproximadamente 320 km, formando assim a ilha de Bananal, a maior ilha fluvial do mundo. O rio Araguaia, é navegável cerca de 1.160 km, entre São João do Araguaia e Beleza, porém não possui neste trecho qualquer centro urbano de grande destaque.

Bacia do Atlântico Sul - trechos norte e nordeste

Vários rios de grande porte e significado regional podem ser citados como componentes dessa bacia, a saber: rio Acaraú, Jaguaribe, Piranhas, Potengi, Capibaribe, Una, Pajeú, Turiaçu, Pindaré, Grajaú, Itapecuru, Mearim e Parnaíba.

Em especial, o rio Parnaíba é o formador da fronteira dos estados do Piauí e Maranhão, por seus 970 km de extensão, desde suas nascentes na serra da Tabatinga até o oceano Atlântico, além de representar uma importante hidrovia para o transporte dos produtos agrícolas da região.

Bacia do rio São Francisco

A bacia do rio São Francisco, nasce em Minas Gerais, na serra da Canastra, e atravessa os estados da 88Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe. O rio São Francisco possui uma área de drenagem superior a 630.000 km2 e uma extensão de 3.160 km, tendo como principais afluentes os rios Paracatu, Carinhanha e Grande, pela margem esquerda, e os rios Salitre, das Velhas e Verde Grande, pela margem direita.

De grande importância política, econômica e social, principalmente para a região nordeste do país, é navegável por cerca de 1.800 km, desde Pirapora, em Minas Gerais, até a cachoeira de Paulo Afonso, em função da construção de hidrelétricas com grandes lagos e eclusas, como é o caso de Sobradinho e Itaparica.

Bacia do Atlântico Sul - trecho leste

Da mesma forma que no seu trecho norte e nordeste, a bacia do Atlântico Sul no seu trecho leste possui diversos cursos d'água de grande porte e importância regional. Podem ser citados, entre outros, os rios Pardo, Jequitinhonha, Paraíba do Sul, Vaza-Barris, Itapicuru, das Contas e Paraguaçu.

Por exemplo, o rio Paraíba do Sul está localizado entre os estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, os de maior significado econômico no país, possui ao longo do seu curso diversos aproveitamentos hidrelétricos, cidades ribeirinhas de porte, como Campos, Volta Redonda e São José dos Campos, bem com industrias importantes como a Companhia Siderúrgica Nacional.

Bacia Platina, ou dos rios Paraná e Uruguai

A bacia platina, ou do rio da Prata, é constituída pelas sub-bacias dos rios Paraná, Paraguai e Uruguai, drenando áreas do Brasil, Bolívia, Paraguai, Argentina e Uruguai.

O rio Paraná possui cerca de 4.900 km de extensão, sendo o segundo em comprimento da América do Sul. É formado pela junção dos rios Grande e Paranaíba. Possui como principais tributários os rios Paraguai, Tietê, Paranapanema e Iguaçu. Representa trecho da fronteira entre Brasil e Paraguai, onde foi implantado o aproveitamento hidrelétrico binacional de Itaipu, com 12.700 MW, maior usina hidrelétrica em operação do mundo. Posteriormente, faz fronteira entre o Paraguai e a Argentina. Em função das suas diversas quedas, o rio Paraná somente possui navegação de porte até a cidade argentina de Rosário.

O rio Paraguai, por sua vez, possui um comprimento total de 2.550 km, ao longo dos territórios brasileiro e paraguaio e tem como principais afluentes os rios Miranda, Taquari, Apa e São Lourenço. Nasce próximo à cidade de Diamantino, no estado de Mato Grosso, e drena áreas de importância como o Pantanal mato-grossense. No seu trecho de jusante banha a cidade de Assunción, capital do Paraguai, e forma a fronteira entre este país e a Argentina, até desembocar no rio Paraná, ao norte da cidade de Corrientes.

O rio Uruguai, por fim, possui uma extensão da ordem de 1.600 km, drenando uma área em torno de 307.000 km2. Possui dois principais formadores, os rios Pelotas e Canoas, nascendo a cerca de 65 km a oeste da costa do Atlântico. Fazem parte da sua bacia os rios Peixe, Chapecó, Peperiguaçu, Ibicuí, Turvo, Ijuí e Piratini.

O rio Uruguai forma a fronteira entre a Argentina e Brasil e, mais ao sul, a fronteira entre Argentina e Uruguai, sendo navegável desde sua foz até a cidade de Salto, cerca de 305 km a montante.

Bacia do Atlântico Sul - trechos sudeste e sul

A bacia do Atlântico Sul, nos seus trechos sudeste e sul, é composta por rios da importância do Jacuí, Itajaí e Ribeira do Iguape, entre outros. Os mesmos possuem importância regional, pela participação em atividades como transporte hidroviário, abastecimento d'água e geração de energia elétrica.



Geografia e sua relação com a informatização

geography8.gif Sunday, 03 August 08 - 07:31 PM (GMT -04:00)
By Master Santucci in Geografia
Analises atuais trazem o meio técnico-científico como processo de mudança acelerado, onde o espaço/tempo se tornou muito rápido, em que uma nova forma de produção com base na informação e no conhecimento redefini as relações de comando no planeta.

Assim, é indispensável dispor cada vez mais rapidamente, de informações (quantidade e qualidade) e, um benefício para essas informações, foi à explosão das telecomunicações, onde uma nova geografia das redes afirma que a informação se tornou cada vez mais um produto de compra e venda, e a organização social e territorial da informação vêm sofrendo grandes transformações para os dias atuais. Como conseqüência marcante dessas mudanças importantes na composição técnica territorial,  envolve as novas tecnologias, tais como à cibernética, às biotecnologias, às novas químicas, à informática e à eletrônica.

Isso tudo, a cada dia que passa, mais e mais ciência, tecnologia e informação, se dá  paralelamente à tecnificação do trabalho. Assim, o trabalho se torna no dia-a-dia mais científico em função de uma informatização do territorial.

O território global se informatiza mais depressa do que a economia ou que a sociedade. Tudo se informatiza, mas as fronteiras territoriais se informatizam ainda mais, pois fica claro o uso da informação, que está presente também nos objetos geográficos, tomando como exemplo os bancos eletrônicos entre outros objetos.

Assim, nota-se uma integração em todos os setores econômicos, todos dependentes e girando em torno das novas tecnologias, citando-se aqui a informática como carro chefe. Esta integração como sistema técnico, não aparece isolado, mas sempre como sistema operante, pois o mundo atual nos obriga a reconhecer esse novo sistema de técnicas, sendo suporte de uma nova rede de relações sociais e para uma nova natureza, modificado pelas redes telemáticas, isto é, redes que circulam informações à distância, beneficiando territórios em desenvolvimento, ou seja, democratizando o acesso a essas informações, e até garantindo a diversidade e transmissões de idéias.

Para tanto, os países em desenvolvimento precisam desenvolver a capacidade de processar e analisar essas informações,  geradas por satélites e acumulada em bancos de dados.

Essas informações são trabalhadas e utilizadas principalmente pelas empresas multinacionais e pelos governos, que decidem quais dados devem ser coletados pelos satélites e quais os meios de sua difusão. Assim, a informação utilizada democraticamente previne abusos e eleva a participação pública nos processos de decisão.

Os recursos tecnológicos que criaram essa rede de informação planetária parte dos maiores centros, até chegar ao menor vilarejo de todas as partes do globo e vice-versa, onde por essas vias de comunicação permiti difundir informações em escala global.

Para o exercício pleno da cidadania  uma exigência ao cidadão é a capacidade de navegar em infovias de informações. Para isso, é necessário saber selecionar, ordenar e interpretar a imensa massa de dados existente em circulação no espaço cibernético (infoespaço) mundial. Pensando assim, o saber da Geografia pode ajudar a compreender melhor esse espaço de fluxos, que apesar de tentar se descolar dos lugares de origem, ainda reflete a desigual distribuição da riqueza e problemas sociais a nível global. Assim, a garantia de democracia repousa em adotar decisões políticas com a informação da sociedade, ou seja, permitindo-lhes expressão das idéias.

A pesquisa geográfica orientada para a telemática apresenta uma visão integradora, encarando a análise das mais variadas formas de organização do espaço, resultantes da apropriação e de usos do meio informatizado por distintos grupos sociais, alterando e transformando constantemente o ambiente que os cerca.

Neste início de século, as preocupações com as condições sócio-culturais, econômicas e ambientais através de segmentos da informação, chegaram a várias esferas sociais, políticas e econômicas. A crescente universalização dos problemas que afligem a humanidade implica o estabelecimento de novas reflexões, tanto nos países altamente industrializados como nos países subdesenvolvidos. A Geografia, ao tratar a problemática social, procura enforcar com coerência a abordagem desses estudos.

Existe uma relação dinâmica, ou seja, em constante transformação, entre sociedade e tecnologia, e é por isso, que as inovações tecnológicas e as mudanças da sociedade devem manter um vínculo entre si.

A influência da tecnologia informatizada causado sobre o homem e o meio em que vive provoca mudanças nos sistemas de sociedade. Hoje, essa tecnologia é vista como um conjunto de sistemas complexos, dentro do qual existem fluxos de interação entre suas diversas partes constituintes.

E a Globalização?

Os avanços tecnológicos, particularmente nos transportes e comunicações, permitiram que as grandes corporações particulares e governamentais, adotassem um novo procedimento, uma estratégia global de produção que consiste em decompor o processo produtivo e dispersar suas etapas em escala mundial, buscando menores custos operacionais. A produção deixa de ser local para ser mundial, ocorrendo o mesmo  com o consumo, uma vez que os mesmos produtos são oferecidos à venda nos diversos cantos do globo. Os fluxos econômicos cresceram, promovidos pelas grandes empresas, chamadas de transnacionais. Quanto ao trabalho, sua divisão fica subvertida, sendo difícil a identificação do lugar industrial de sua produção.

Com o fim do socialismo, citando como marco o início dos anos 90, a internacionalização do capitalismo encampa  praticamente todo o planeta e se intensifica a tal ponto que, a globalização – como passa a ser chamado esse processo - é marcada e tem como base a mundialização da produção, da circulação e do consumo, ou seja, o ciclo de reprodução do capital passa a ser influente em todos os países, mesmo os de economia fechada, que são forçados a uma abertura.

Assim, a eliminação de barreiras entre as nações torna-se uma necessidade inevitável, com a finalidade de fluxo de capital e mercadorias sem barreiras. Vem daí enfraquecimento do Estado, que perde poder diante as grandes corporações mundiais.

O “gerador” da globalização é a competitividade, onde os produtos competitivos no mercado levam as grandes empresas a financiarem ou promoverem pesquisas, resultando num acelerado avanço tecnológico.

Esse processo de avanço implica na informatização de atividades e automatização da indústria, incluindo até aqui a robotização industrial e mecanização agrícola.

Uma das conseqüências marcantes da Globalização passa a ser o desemprego, que torna-se uma ferida social na atual fase do capitalismo.

Essa ferida ou fantasma ronda a vida dos trabalhadores. Para muitos especialistas, trata-se de um desemprego estrutural, isto é, causado pelas transformações que vêm ocorrendo no padrão ou modelo de desenvolvimento produtivo e tecnológico que predomina nos países capitalistas avançados. Essas transformações apresentam diferenças nos países onde ocorrem alterando a organização do processo produtivo e do trabalho em todos eles e nos demais lugares do mundo também, afetando o conjunto do mundo do trabalho.

Em primeiro plano, os robôs e/ou as novas tecnologias de produção parecem ser os únicos e mais cruéis causadores desse desemprego. No entanto, existem outras razões de ordem econômica, social, institucional e geopolítica que, associadas à tecnologia, formam um conjunto que explica melhor aquilo que significaria até mesmo o fim de uma sociedade organizada com base no trabalho.

O capitalismo e sua estrutura, como todo sistema econômico, sofreu transformações ao longo de sua história. As mudanças podem ser profundas, acumular tensões sociais e graves problemas econômicos, gerar crises, guerras e revoluções políticas, mas o sistema permanece basicamente o mesmo, isto é, trata-se de um sistema produtor de mercadorias cuja venda tem por objetivo o lucro. Por isso o chamamos, indistintamente, de economia de mercado ou economia capitalista.

Percebe-se porém, que a globalização é mais intensa na economia, apesar de ela também ocorrer na informação, na cultura, na ciência, na política e no espaço. Mas esse fato não deve levar ao pensamento de que com a globalização teremos um espaço mundial homogêneo, mas sim um espaço seletivo, heterogêneo, pois muitos espaços ficam excluídos dessa globalização, ermos de informações, sem crescimento econômico, social e/ou cultural, provocando na maioria das vezes uma  imensa concentração de riqueza, aumentando as diferenças entre países e, no interior deles diferenças de classes e segmentos sociais acentuados.

A expressão Aldeia Global, criada pelo infoespaço, reflete a existência de uma comunidade mundial integrada pela grande possibilidade de comunicação e informação, se utilizando dos diferentes sistemas de comunicação, onde uma  pessoa pode saber e interagir os acontecimentos de qualquer parte do mundo no exato momento em que ocorrem, onde uma só imagem é transmitida para o mundo todo, uma só visão.

Os avanços tecnológicos da informação possibilitam a criação de uma opinião pública mundial, ou seja, de massificação da informação, através da Rede Mundial de Computadores (Internet), onde o indivíduo, de sua casa pode obter todas as informações e mudanças do Mundo, no  sincronismo de seus acontecimentos, bem como,  trocar informações conectando-se com outros países e pessoas.

“Esse o desafio diante do qual se colocam as ciências sociais. Ao lado das suas muitas realizações, são desafiadas a recriar o seu objeto e os seus procedimentos, submetendo muito do conhecimento acumulado à crítica; e avançando para novas ambições. Os cientistas sociais não precisam mais imaginar o que poderia ser o mundo para estudá-lo. O mundo já é uma realidade social, complexa, difícil, impressionante e fascinante, mas pouco conhecida.

Já não se trata mais apenas da controvérsia modernidade e pós-modernidade, ou universalismo e relativismo, individualismo e holismo, pequeno relato e grande relato, micro-teoria e macro-teoria, mas também de megateoria. A envergadura das relações, processos e estruturas de âmbito mundial, com as suas implicações locais, nacionais, regionais e mundiais, exige conceitos, categorias ou interpretações de alcance global. Esse o contexto em que se elaboram metáforas e conceitos tais como os seguintes: multinacional, transnacional, mundial, planetário e global; aldeia global, nova ordem econômica mundial, mundo sem fronteiras, terra-pátria, fim da geografia e fim da história; desterritorialização, miniaturização, ubiqüidade das coisas, gentes e idéias, sociedade informática, infovia e internet; sociedade civil mundial, estruturas mundiais de poder, classes sociais transnacionais, globalização da questão social, cidadão do mundo e cosmopolitismo; ocidentalização do mundo, orientalização do mundo, globalização, globalismo, mundo sistêmico, capitalismo global, neoliberalismo, neonazismo, neofascismo, neo-socialismo e modernidade-mundo.

Mais uma vez, as ciências sociais revelam-se formas de autoconsciência científica da realidade social. Neste caso, uma realidade social múltipla, desigual e contraditória, ou articulada e fragmentária. São muitos, inúmeros, os estudos de todos os tipos, sobre todos os aspectos da realidade social, produzidos em todo o mundo, em todas as línguas. Há toda uma biblioteca de Babel formada com os livros e as revistas de ciências sociais que se publicam, conformando uma visão múltipla, polifônica, babélica ou fantástica das mais diveras formas de autoconsciência, compreensão, explicação, imaginação e fabulação; tratando de entender o presente, repensar o passado e imaginar o futuro.” (OCTÁVIO IANNI)

O mundo contemporâneo, entrando no novo milênio, sofre transformações estruturais significativas. O processo histórico do desenvolvimento da ciência e da tecnologia universalizou o homem moderno, criando condições objetivas para que ele seja, ao mesmo tempo, universal e tribal (não-local e local). Segundo o filósofo italiano Gianni Vattimo, "vivemos o mundo da comunicação generalizada, da sociedade do mas media, com uma multiplicação de valores locais".

Começa a surgir uma nova percepção espacial que modifica, também, o conceito de Geografia, agora não mais baseada apenas no espaço mas sim, vinculada ao espaço-tempo. Como diz Paul Virilio, "a geografia do dia da velocidade e não mais a geográfica do dia meteorológico."

Estas transformações aceleradas estão intrinsecamente vinculadas a este mundo de comunicação generalizada. Mas, o que, efetivamente, significa esse mundo, com esta presença marcante dos meios eletrônicos de comunicação?

Um novo lugar, agora não mais físico, não mais geográfico, assume o papel de lugar público. Este novo lugar é a tela da televisão e/ou o espaço virtual das redes telemáticas de computadores.

 

Estas transformações vivenciadas pela humanidade neste final de milênio estão intimamente vinculadas, como já dito, com o desenvolvimento das novas tecnologias da comunicação e informação que, mais recentemente, ganham incremento a partir do movimento de aproximação entre as diversas indústrias (de equipamentos, eletrônica, informática, telefone, cabos, satélites, entretenimento e comunicação). Este movimento, que é a condição objetiva para o aperfeiçoamento destas tecnologias, faz com que, potencialmente, aumentem as possibilidades de comunicação entre as pessoas.

O desenvolvimento tecnológico, hoje fruto da associação de indústrias antes concorrentes, tem se dado de forma bastante acelerada, com o aperfeiçoamento das máquinas que possibilitam a comunicação entre as pessoas. São os computadores, telefones, fax, televisões, agora interativas, que, numa velocidade quase que alucinante, vão introduzindo novos hábitos e valores no cotidiano da sociedade contemporânea.

Os computadores passam a fazer parte do cotidiano das pessoas e Instituições, constituindo-se não só como uma importante, muitas vezes indispensável, ferramenta de trabalho mas, cada dia mais, como portador, ele mesmo, de uma nova maneira de pensar e de trabalhar, incluindo aí o ato de pesquisar e de educar.

É nos Estados Unidos, onde a Internet nasceu, que encontramos o maior número de usuários, distribuídos entre Instituições de pesquisa, educacionais, governamentais, militares, organizações não-governamentais (ONGs) e comerciais.

Ao mesmo tempo que ampliam-se as conexões físicas para que, de qualquer parte do planeta se possa estar ligado aos bancos de dados, computadores remotos, pessoas e Instituições que desenvolvem pesquisas nas mesmas áreas, alguns aspectos legais são discutidos, visando facilitar o acesso à rede, em especial para projetos ligados à educação.

O Televias para a Educação ainda está em gestação mas já se prenuncia a possibilidade de um maior uso desta rede nas atividades educacionais das escolas brasileiras, em todos os níveis.

Neste sistema global, os conceitos de conceitos descritos anteriormente podem e sofrem mudanças e, a Geografia tende a analisar, juntamente com outras disciplinas suas principais relações e interposições.




Ciclos tecnológicos da Revolução Industrial

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By Master Santucci in Geografia

A Revolução Industrial divide a história das civilizações em duas épocas nitidamente diferentes. Antes dela, a economia repousava sobre uma base técnica que evoluía apenas muito lentamente. Depois dela, a transformação tecnológica transformou-se no fundamento da vida econômica. Do ponto de vista social e cultural, as civilizações pré-industriais norteavam-se pela tradição, enquanto a civilização industrial orienta-se pela mudança.

A economia industrial desenvolve-se, desde o nascimento das primeiras fábricas, através de ciclos longos que começam com uma fase de rápido crescimento e acumulação de capital, atravessam uma fase de estabilização e, em seguida, conhecem uma fase descendente caracterizada pela redução do crescimento e dos lucros empresariais. O economista russo Nikolai Krondatieff, pesquisando na década de 1920 as estatísticas de produção industrial, consumo, preços, juros e salários da Grã-Bretanha, Estados Unidos e França, foi o primeiro a registrar esses ciclos longos. Mais tarde, o economista austríaco Joseph Schumpeter estudou-os em profundidade, conseguindo associá-los à marcha da inovação tecnológica.

A “destruição criadora”

De acordo com Schumpeter, a economia industrial evolui por meio da “destruição criadora”. Quando um conjunto de novas tecnologias encontra aplicação produtiva, as tecnologias tradicionais são “destruídas”, isto é, deixam de criar produtos capazes de competir no mercado e acabam sendo abandonadas. Na fase inicial, ascendente, do ciclo, as novas tecnologias distinguem os empresários inovadores dos que continuam utilizando as tecnologias tradicionais. Os inovadores são “premiados” com elevadas taxas de lucros e erguem verdadeiros impérios empresariais.

         Na fase de estabilização, os lucros caem para patamares menores, pois a maior parte das empresas adotou o novo conjunto de tecnologias e a competição tornou-se mais acirrada. Finalmente, a fase descendente caracteriza-se por um excesso de oferta em relação à demanda. As tecnologias que inauguraram o ciclo tornaram-se, a essa altura, tradicionais. A queda acentuada dos lucros prenuncia mais uma ruptura na base técnica, que deflagrará novo ciclo. As idéias de Schumpeter permitem identificar os cinco ciclos - ou ondas - de inovação, das fábricas têxteis do século XVIII até a “era dos computadores” (veja a figura).


Fonte: Magnoli, Demétrio e Araújo, Regina, Projeto de Ensino de Geografia: natureza, tecnologia, sociedades. São Paulo, Moderna, prelo.

A fase inicial de cada onda de inovação é a época de ouro dos empreendedores. Adaptando pioneiramente as novidades tecnológicas à produção, empreendedores ousados conquistam vastos mercados. Quase do nada, surgem empresas de grande porte, que se tornam símbolos do seu tempo. Enquanto isso, grandes empresas baseadas em padrões tecnológicos superados entram em crise e acabam se reformulando de alto a baixo ou simplesmente desaparecem.

É na fase inicial que ocorre a “destruição criadora”. Quando a onda de inovação atinge a fase de estabilização, as novidades tecnológicas consistem em aperfeiçoamentos do padrão tecnológico estabelecido. Essa é a época de ouro das grandes empresas, que dominam mercados já plenamente configurados. Os pequenos empreendedores, que não dispõem de recursos financeiros vultosos, são incapazes de concorrer com as grandes empresas. Freqüentemente, seus empreendimentos e suas inovações são incorporados pelas empresas dominantes. Outras vezes, tecnologias melhores são rejeitadas, pois um padrão menos eficiente adquiriu aceitação geral.

Na fase descendente da onda de inovação, os mercados estão saturados. A economia registra superprodução. Inúmeras empresas revelam-se incapazes de sustentar a concorrência, cada vez mais feroz, e são incorporadas por conglomerados mais poderosos. Essa é a época de ouro da centralização de capitais. Quando, finalmente, uma nova onda se inicia, surgem mercadorias revolucionárias. Sob o impacto da “destruição criadora”, a superprodução é eliminada pois os consumidores dirigem-se, ansiosamente, para os novos produtos disponíveis. Assim, o ciclo recomeça, em novas bases tecnológicas.

Tecnologia e geografia

Os ciclos econômicos longos estão associados às formas de organização do espaço geográfico. A energia hidráulica, fundamento dos primórdios da industrialização, atraiu as fábricas para as margens dos cursos de água. A máquina a vapor, desde meados do século XIX, atraiu as fábricas para os depósitos carboníferos. O advento das ferrovias possibilitou a exploração de novas terras pela agropecuária comercial. A energia elétrica libertou a indústria das localizações tradicionais e revolucionou a divisão técnica do trabalho no interior das fábricas.

A Inglaterra deu a largada para a Revolução Industrial. Nas últimas décadas do século XVIII, uma série de inovações na tecnologia de produção (como a máquina de fiar e o tear hidráulico) possibilitaram a mecanização do setor têxtil. A produtividade das indústrias algodoeiras – as primeiras indústrias modernas – cresceu exponencialmente a partir de então. Produzia-se muito mais e em muito menos tempo.

Ao lado da indústria têxtil, a modernização das fundições de ferro impulsionou o ciclo inicial da industrialização. Há séculos, o ferro era fundido em fornalhas a lenha. A utilização do carvão mineral em altos fornos capazes de gerar temperaturas elevadíssimas inaugurou a siderurgia moderna.

O carvão se tornava cada vez mais importante. A sua utilização, como força motriz, foi iniciada com o aperfeiçoamento da máquina a vapor, em 1769. Mas apenas em meados do século XIX, na Inglaterra, a máquina a vapor substituiu, largamente, o tear hidráulico. Na França e nos Estados Unidos, a energia hidráulica sobreviveu por mais tempo ainda.

A revolução do carvão expressou-se, fora das fábricas, no setor de transportes. As ferrovias e os barcos a vapor “encurtaram” as distâncias, reduzindo brutalmente os custos de deslocamento de matérias-primas e alimentos. Na segunda onda de inovações da Revolução Industrial, as terras das planícies centrais dos Estados Unidos tornaram-se celeiros de alimentos para as cidades européias.

Não por acaso, o século XIX ficou conhecido com a “era das ferrovias”. Ao mesmo tempo em que serviam para escoar mais rapidamente os produtos e para unificar os mercados, as ferrovias foram uma excelente opção para os investidores dos países industrializados. Assim, rapidamente, os trilhos ferroviários ganharam o mundo, barateando os custos de transportes e aumentando os lucros do comércio.

A segunda onda caracterizou-se, ainda, por um grande salto tecnológico na siderurgia. O forno Bessemer, inventado em 1855, utilizava rajadas de oxigênio no refino do ferro fundido, permitindo a obtenção de aços de alta qualidade. No oeste da Alemanha, junto às jazidas carboníferas do vale do rio Ruhr, desenvolveram-se os conglomerados siderúrgicos da maior concentração industrial européia.

As cidades industriais típicas do século XIX – tais como Manchester e Liverpool, na Inglaterra, e Colônia, na Alemanha – eram de tamanho médio, localizadas juntos às bacias carboníferas. Elas concentravam a produção siderúrgica e a produção de têxteis de algodão. O ritmo da produção fabril regulava a vida nesses centros urbanos, onde a maioria da população era composta de empregados assalariados das indústrias.

A primeira onda da Revolução Industrial restringiu-se, praticamente, à Grã-Bretanha. Na segunda onda, a industrialização se espraiou pela Europa, fincando raízes na Bélgica, França, Alemanha, Suécia e, um pouco depois, na Holanda, Itália, Áustria e Rússia. Do outro lado do Atlântico, a indústria estabelecia-se nas cidades do nordeste dos Estados Unidos. No final do século, sob o impulso da centralização do poder político, o Japão decolava para o industrialismo.

Durante a maior parte do século XIX, a Grã-Bretanha conservou a liderança econômica. A sua frota mercante, a maior do mundo, havia conquistado o domínio dos mares. A supremacia comercial garantiu a disponibilidade dos capitais necessários para o investimento industrial e assegurou o controle sobre os mercados fornecedores de matérias-primas.

A Revolução Industrial abriu as portas para a formação da economia-mundo, ou seja, para a incorporação de todos os povos e continentes nos fluxos mercantis e circuitos de investimentos centralizados pelas potências industriais. Nas últimas décadas do século XIX, navios cargueiros singravam os oceanos, no ocidente e no oriente, transportando mercadorias industriais, matérias-primas minerais e produtos agrícolas. O imperialismo – anexando novas áreas coloniais na África e Ásia e esferas de influência na América Latina – criou um verdadeiro mercado de dimensões planetárias.

As potências industriais importavam basicamente dois tipos de mercadorias: matérias-primas e produtos agrícolas tropicais. Para as colônias e áreas de influência, elas exportavam seus produtos industrializados, principalmente os têxteis e metalúrgicos. A estrutura comercial britânica revela com nitidez a divisão internacional do trabalho gerada pelas ondas iniciais da Revolução Industrial: no século XIX, alimentos e matérias-primas constituíam 75% das importações; 85% das exportações eram produtos fabricados.

A borracha das florestas equatoriais da África e do Brasil, o estanho da Bolívia, o cobre do Chile, do Peru e do Congo, por exemplo, se tornaram matérias-primas fundamentais para as novas indústrias européias e norte-americanas. Os navios mercantes traziam das regiões tropicais enormes quantidades de cacau, açúcar e café, gêneros cujo consumo estava se popularizando nas cidades da Europa e dos Estados Unidos.

O traçado das ferrovias ilumina uma das características essenciais da geografia produzida pelo imperialismo. Na França e na Inglaterra, assim como nos demais países industrializados da Europa, foram construídos troncos principais complementados por uma densa rede de trilhos que se espalham em todas as direções, facilitando o transportes no interior do território e unificando o mercado interno. Nos Estados Unidos, os grandes ramais ferroviários cortaram transversalmente o território e ajudaram a integrar o oeste agrícola ao nordeste industrial. 

Entretanto, na África – como também na América Latina – as ferrovias nasceram para ligar as regiões produtoras de matérias-primas aos portos exportadores. Até hoje, o seu traçado serve de espelho da organização do espaço produzida pelo imperialismo. Nesse caso, o mercado externo funcionava como principal motor da economia. As redes de transporte, ao invés de integrar, fragmentavam os espaços nacionais. Junto com o espaço geográfico de dimensões planetária, emergia uma divisão internacional do trabalho que iria marcar de forma duradoura as populações de continentes inteiros.

A divisão internacional do trabalho no capitalismo industrial envolvia também fluxos de investimentos diretos das potências econômicas para as suas esferas de influência. Tais investimentos de capital concentravam-se, essencialmente, em setores de infra-estrutura (eletricidade, iluminação, telefonia) e transportes (ferrovias, portos).

Na última década do século XIX, a economia industrial britânica foi ultrapassada pelos Estados Unidos. Na primeira década do século XX, era ultrapassada também pela Alemanha. Contudo, a sua duradoura liderança passada continuou, por algum tempo, a se refletir nos investimentos de capital no exterior. No início da Primeira Guerra Mundial, os capitais britânicos estabelecidos no estrangeiro representavam mais que o dobro dos investimentos franceses e quase o triplo dos investimentos alemães

A geografia dos movimentos de capitais refletia, com bastante fidelidade, a influência política das potências. Os capitais britânicos fluíam para todos os continentes, alimentando negócios no Império, na América e no Oriente. França, Alemanha e Holanda tinham vultosos investimentos, direcionados para a Europa do leste e as colônias afro-asiáticas. Na época, os capitais norte-americanos apenas começavam a ganhar o estrangeiro, limitando-se praticamente aos países vizinhos da América do Norte.

Os países-fábricas dominavam o mundo com os seus produtos e seu capital. As economias coloniais e semi-coloniais se especializaram na produção de uns poucos produtos primários, e cada vez mais se tornavam dependentes dos mercados e investimentos externos.

O fordismo e o “século americano”

No alvorecer do século XX, um novo conjunto de tecnologias deflagrava a terceira onda da industrialização. O uso do petróleo como combustível e a invenção do motor a combustão interna originavam a indústria automobilística. Nascia, ao mesmo tempo, a moderna indústria química. A eletricidade tornava-se a fonte de energia das fábricas. Os motores elétricos e, com eles, a linha de montagem propiciavam um salto extraordinário na produtividade do trabalho. Simultaneamente, a difusão do telex e do telefone revolucionavam as comunicações.

 “Os últimos serão os primeiros” – esse provérbio bíblico descreve, com alguma precisão, a evolução do mundo industrial durante a terceira onda. A maturidade industrial britânica foi atingida muito cedo, em meados do século XIX, cerca de 70 anos depois da decolagem industrialista. A Alemanha, a França e os Estados Unidos, que só então decolavam para o mundo industrial, não precisaram sequer de meio século para alcançar a maturidade. Esses países retardatários aproveitaram-se dos avanços tecnológicos britânicos para queimar etapas e saltar degraus. Na Grã-Bretanha, pelo contrário, a força inercial dos velhos padrões tecnológicos sabotava o ritmo da inovação.

Os Estados Unidos constituem o exemplo mais notável desse avanço por saltos que caracterizou a industrialização das potências retardatárias. As suas condições históricas e geográficas específicas – principalmente, a ausência de um passado feudal e as enormes potencialidades agrícolas do seu território – possibilitaram um surto de desenvolvimento desconhecido nos demais países industriais.

A etapa do consumo de massa, caracterizada pela incorporação da maior parte da população ao mercado consumidor de bens industriais, foi atingida pelos Estados Unidos já na década de 1920. Na Europa industrial, inclusive na pioneira Grã-Bretanha, essa etapa só veio a ser alcançada mais tarde, pouco antes ou logo depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

A economia-mundo atravessou dois grandes ciclos no século XX. Até a Segunda Guerra Mundial viveu a onda tecnológica baseada nos motores a combustão interna, no petróleo e na eletricidade. Essa onda propiciou a “idade de ouro” da década de 1920, caracterizada pelo intenso crescimento que se seguiu à Primeira Guerra Mundial, abruptamente interrompida pelo crash da Bolsa de Nova Iorque, em 1929. A Grande Depressão da década de 1930 assinalou, dolorosamente, a fase o descendente do ciclo.

Depois da Segunda Guerra Mundial o crescimento foi retomado sobre novas bases tecnológicas. A indústria eletrônica criou centenas de novos produtos e conferiu mais um impulso à produção automobilística. O desenvolvimento da petroquímica gerou a indústria de plásticos e fibras sintéticas. A aeronáutica civil beneficiou-se dos avanços na aviação militar, produzindo mais uma revolução nos transportes.

A quarta onda industrial reativou a produção e a circulação de mercadorias. Nas décadas do pós-guerra, o crescimento industrial e a ampliação do comércio mundial atingiram índices maiores que os registrados desde meados do século XIX.

A hegemonia dos Estados Unidos atingiu o seu ápice pouco depois da Segunda Guerra Mundial, quando a vitalidade das suas indústrias contrastava com a desorganização geral dos sistemas produtivos dos países europeus e do Japão, arrasados pelo conflito. O Produto Nacional Bruto (PNB) das cinco potências econômicas européias e do Japão somados não atingiam o da potência hegemônica. A quarta onda de inovação desenvolvia-se, em escala ainda mais pronunciada que a terceira, como uma verdadeira “onda americana”. As novas tecnologias surgiam nas indústrias da América do Norte e os novos produtos estabeleciam-se, em primeiro lugar, no mercado consumidor dos Estados Unidos.

A revolução tecnocientífica

A economia mundial capitalista conheceu um período de intensa vitalidade após a Segunda Guerra Mundial. Esse ciclo de prosperidade, que correspondeu à quarta onda de inovação tecnológica, entrou em declínio na década de 1970.

Enquanto se esgotava o padrão tecnológico do pós-guerra, uma nova onda de inovações estava a caminho. Os seus fundamentos repousam sobre a emergência das tecnologias da microeletrônica e da transmissão de informações, de um lado, e sobre a automatização e a robotização dos processos produtivos, de outro. Essa onda de inovações, que continua a se desenvolver, ficou conhecida como revolução tecnocientífica.

A revolução tecnocientífica tem seu núcleo no entrelaçamento da indústria de computadores e softwares com a das telecomunicações. Os extraordinários avanços nas técnicas de armazenamento e processamento de informações foram potencializados pelas redes digitais, cabos de fibras óticas e satélites de comunicações. As mercadorias derivadas dessas técnicas colonizaram as indústrias tradicionais, reinventando seus produtos e processos de produção. A informática invadiu o setor financeiro, os sistemas de administração pública e privada, os serviços de transportes, saúde e educação. Os novos bens de consumo – computadores pessoais, telefones celulares, produtos de multimídia – reorganizaram mercados e geraram uma imensa demanda.

A onda de inovações envolveu outros campos, assentados sobre a aplicação da ciência às tecnologias de produção. A química fina abre caminho para a criação de uma série de novos remédios. A biotecnologia encontra aplicações na medicina e na agricultura. A robótica intensifica a automação industrial. Mas as grandes empresas que nasceram com a revolução tecnocientífica são, principalmente, aquelas ligadas à informática e às telecomunicações.

A revolução tecnocientífica confirmou a liderança econômica dos Estados Unidos. As empresas-símbolo da nova era são, em geral, norte-americanas. A mais conhecida – a Microsoft – definiu os padrões de software utilizados pelos computadores pessoais e por boa parte das redes de computadores empresariais. Inúmeras outras – como a Intel, a Compaq, a Cisco, a Hewlett-Packard, a IBM, a Sun Microsystems – adquiriram a hegemonia em diferentes áreas da informática. Além delas, as empresas de tecnologia telefônica assumiram lugares de ponta no campo da transmissão de informações. Fora dos Estados Unidos, a onda de inovações desenvolveu-se, em ritmo menos acelerado, a partir de algumas grandes empresas japonesas e européias.

Nas indústrias da informação, o sucesso empresarial depende, como regra, do estabelecimento da transformação de uma nova tecnologia em um padrão do mercado. Os empreendedores que conseguem realizar esse salto implantam duradouramente os seus produtos e obrigam os concorrentes a se adaptar ao padrão dominante. Durante todo o tempo em que aquela tecnologia funciona como padrão, a empresa que a institui aufere rendas de monopólio, ampliando fantasticamente a sua lucratividade.

A Microsoft tornou-se uma das maiores corporações do mundo em função do seu sucesso em estabelecer o padrão dos programas operacionais de computadores pessoais. Na opinião de muitos especialistas, esse padrão, que representou um admirável salto tecnológico, tornou-se mais tarde um obstáculo à inovação e uma poderosa barreira à entrada de competidores no mercado. Mas a vitória nas “guerras por padrões” definem as empresas de sucesso desde a aurora da revolução tecnocientífica.

O ritmo acelerado da substituição tecnológica caracterizou todas as ondas de inovações. Tecnologias recentes são rapidamente superadas e tornam-se obsoletas. Os produtos que as incorporam exibem ciclo de vida curto, o que impulsiona o consumo e amplia as margens de lucro das empresas. Logo, acumulam-se “ruínas tecnológicas”, sob a forma de mercadorias que, poucos anos antes, foram consideradas exemplares da mais refinada técnica. Essa característica marcou, desde o início, a “era da informação”.

No final da década de 1960, Gordon Moore, da então desconhecida empresa norte-americana Intel, enunciou a “lei” segundo a qual a performance dos microprocessadores dobraria a cada 18 meses. O acerto dessa profecia explica a liderança alcançada pela indústria da informação na revolução tecnocientífica. Os microprocessadores, cada vez mais poderosos, estão atualmente incorporados a quase todos os produtos. Eles tornaram-se parte do fluxo vital das sociedades, como ocorreu há um século com a energia elétrica. Cada novo salto de performance desatualiza milhares de produtos. O contraste entre o “novo” e o “velho” invade a vida cotidiana

Adeus ao fordismo

A economia industrial do século XX desenvolveu-se sobre a base da aplicação da eletricidade à produção e da reorganização das fábricas em torno da linha de montagem. Essas inovações, introduzidas por Henry Ford na sua fábrica de automóveis, disseminaram-se por todos os setores e permitiram a produção em série de mercadorias estandartizadas para mercados de massa. O aprofundamento da divisão técnica do trabalho, o emprego de mão-de-obra numerosa e semi-qualificada e a utilização intensiva de energia são características associadas ao fordismo.

A revolução tecnocientífica e as indústrias de ponta da onda atual de inovações anunciam o esgotamento do fordismo. O conceito de produção serializada para mercados homogêneos é substituída pela de produção flexível de mercadorias adaptadas a nichos de mercado com exigências específicas. A meta fordista da redução de preços através da constante ampliação da escala de produção dá lugar ao contínuo aperfeiçoamento tecnológico dos produtos, com incorporação de valor a cada nova versão. Os computadores pessoais, por exemplo, custam cada vez mais, mas a sua capacidade de processamento cresceu muito mais rapidamente que seus preços.

As indústrias de ponta da revolução tecnocientífica não são vorazes consumidoras de energia. Elas se caracterizam pela intensa aplicação da ciência e do conhecimento na elaboração de novos produtos. As empresas que lideram a inovação investem pesadamente em pesquisa científica e tecnológica. As universidades e centros de pesquisa constituem elos da produção industrial e a mão-de-obra de alta qualificação é disputada pelas corporações da informática, das telecomunicações, da robótica, da biotecnologia e da química fina.

O meio geográfico típico do fordismo são as concentrações industriais associadas a jazidas carboníferas, reservas minerais ou metrópoles. Essas concentrações estruturam-se em torno de ferrovias, rodovias ou portos. No seu entorno, estendem-se cidades ou bairros operários. A atividade sindical é intensa e as relações sociais são marcadas pelos movimentos reivindicativos de tipo corporativo.

O meio tecnocientífico-informacional é pós-fordista. As corporações estruturam redes de âmbito global, integradas virtualmente pelas tecnologias da informação. Essas redes abrangem centros de pesquisa e laboratórios, plantas industriais e uma vasta gama de empresas fornecedoras de produtos e serviços. Muitas vezes, a administração empresarial foi inteiramente separada das plantas industriais, assim como os centros de pesquisa e laboratórios. A produção em larga escala realiza-se, freqüentemente, em fábricas estabelecidas em países que dispõem de força de trabalho barata. Os diversos componentes de um produto podem ser fabricados em lugares diferentes do mundo, selecionados em função das vantagens comparativas de cada país. As operações produtivas repetitivas automatizam-se e a mão-de-obra semi-qualificada é largamente substituída por robôs industriais.

Demétrio Magnoli e Regina Araujo - Projeto de Ensino de Geografia: natureza, tecnologias, sociedades. São Paulo, Moderna, prelo.



Significados - Geomorfologia

geography8.gif Tuesday, 15 July 08 - 09:35 PM (GMT -04:00)
By Master Santucci in Geografia

s f - Geol. - Ciência que estuda as formas, origem e evolução do relevo terrestre. Em seus estudos a Geomorfologia lança mão do estudo de vários fenômenos comuns às Geociências, como o Intemperismo e a Tectônica de placas. Esta última foi responsável por grandes avanços da Geomorfologia nos últimos 30 anos, ao dar uma explicação plausível sobre a origem das grandes cadeias montanhosas e do equilíbrio isostático (Isostasia) existente entre a crosta terrestre e a Astenosfera (região plástica do Manto).

Em linhas gerais podemos dizer que, em qualquer momento do tempo geológico, o relevo terrestre é resultado da procura do equilíbrio entre a ações resultantes dos fenômenos internos (tendência ao fluxo da astenosfera, hot spots e movimentação das placas tectônicas, com todos as suas conseqüências: orogênese, vulcanismo, terremotos) e dos fenômenos externos (intemperismo, denudação, erosão, sedimentação, sorguimento isostático, e mais modernamente, a ação do homem).

Não se deve esquecer que em dado momento de sua história geológica, o relevo terrestre foi muito influenciado pelo bombardeio de corpos extra- terrestres. Este relevo, povoado de Astroblemas, foi quase que totalmente apagado pelas dinâmicas internas e externas posteriores, estando presente alguns exemplares tardios, como a Cratera Barringer ou Cratera do Arizona. No Brasil temos algumas cicatrizes(astroblema) antigas.

Diferentemente, em outros planetas e em nosso satélite natural, a Lua, este relevo ainda se faz presente, o que por si só atesta as diferentes histórias geológicas entre eles.

Modernamente, a Geomorfologia passou a incorporar em suas considerações, a intervenção antropomórfica (intevenção humana) sobre o relevo, sendo uma grande aliada nos estudos ambientais, ao permitir entender, modelar e prever fenômenos como: Inundações, movimentos de massa, subsidências em grandes áreas, etc

De Dicionário Livre de Geociências



Significados - Geologia

geography8.gif Tuesday, 15 July 08 - 09:32 PM (GMT -04:00)
By Master Santucci in Geografia

s.f.- Ciência que estuda a evolução da Terra, sua composição, suas rochas e minerais e por extensão os outros planetas e satélites naturais do Sistema Solar. A base do raciocínio geológico foi lançada no século XIX por Charles Lyell e presupõe que o estudo dos fenômenos que ocorrem hoje são suficientes para explicar o passado da Terra: "O presente é a chave do passado". Outro importante elemento no raciocínio geológico é considerar o tempo geológico numa escala que permita que as pequenas e sutis mudanças possam se acumular e provocar grandes transformações, como é caso da migração dos continentes, dos processos erosivo e sedimentares, o surgimento de grandes cadeias de montanhas, etc.

De Dicionário Livre de Geociências



A urbanização de favelas

geography8.gif Saturday, 24 May 08 - 08:15 AM (GMT -04:00)
By Master Santucci in Geografia

Folha OnLine Opinião

Os governos federal, estadual e municipal anunciaram, na terça-feira, investimentos de R$ 4,3 bilhões em obras de urbanização de favelas, expansão de metrô e de saneamento na Grande São Paulo e na Baixada Santista. Desse total, R$ 1,4 bilhão será destinado à transformação das favelas do Complexo de Heliópolis, das margens do Córrego do Ipiranga, de Paraisópolis e das vizinhanças das Represas Billings e Guarapiranga em bairros legalizados, dotados de infra-estrutura e serviços públicos. A assinatura dos contratos ocorreu durante festiva cerimônia organizada na Favela de Heliópolis. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva lembrou que foi morador do complexo de favelas e pescador de tilápia nas Represas Billings e Guarapiranga. Portanto, sentia-se feliz com a realização dos projetos do chamado PAC das favelas, que assegurarão moradia digna por lá.

Apesar da ampla divulgação feita pelo governo federal - o presidente Lula, como sempre, aproveitou a ocasião para fazer mais um comício -, os financiamentos assegurados pela União representam apenas R$ 1 bilhão do total que será investido. A maior parte dos investimentos necessários para melhorar transporte público, moradias e saneamento - mais de R$ 3 bilhões - virá do orçamento da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), dos cofres de prefeituras da Grande São Paulo e de empréstimos concedidos ao governo do Estado e às prefeituras de São Paulo, Santo André e Osasco, entre outras, por organismos internacionais como o Banco Mundial, o Banco Interamericano de Desenvolvimento e Japan Bank for International Cooperation (JBIC).

No Complexo de Heliópolis, localizado no bairro do Ipiranga, na zona sul, as obras beneficiarão 60 mil habitantes que ocupam uma área de 1 milhão de metros quadrados. No total, os projetos incluem a construção de 1.895 moradias, além de obras de pavimentação, de novas escadarias, instalação de espaços de lazer e áreas verdes. O Córrego do Ipiranga será canalizado, os barracos construídos às suas margens serão retirados, por estarem em áreas de alto risco de desabamento, e as famílias serão reassentadas em área contígua.

No Complexo de Heliópolis serão gastos R$ 175 milhões, dos quais R$ 65 milhões virão dos cofres da Prefeitura de São Paulo que, além de obras de urbanização, está desenvolvendo o programa de regularização fundiária das favelas da capital. Há dias, legalizou a posse dos imóveis de mais de 23 mil famílias em 108 áreas públicas da cidade, ocupadas por favelas há mais de 12 anos.

A parceria entre governos também beneficiará o Complexo de Paraisópolis, onde moram 28,8 mil famílias. Dos R$ 172,9 milhões a serem investidos, R$ 112,9 milhões serão assegurados pela Prefeitura e R$ 60 milhões pelo governo federal. Além das obras comuns de urbanização, serão construídas mil moradias, escolas, Unidade Básica de Saúde com Assistência Médica Ambulatorial e será criado um parque linear às margens dos cursos d?água existentes nas comunidades de Paraisópolis, Porto Seguro e Colombo.

Outros R$ 868,7 milhões (R$ 250 milhões de repasses federais) serão investidos em 45 favelas localizadas nas áreas das Represas Billings e Guarapiranga. Lá vivem milhares de famílias em situação irregular, comprometendo a qualidade das águas dos mananciais, seja porque desmataram o local para erguer seus barracos, seja porque fizeram esgotos a céu aberto e depósitos de lixo que contaminam as águas.

Conter o crescimento desses e de outros grandes complexos de favelas de São Paulo e urbanizá-los é uma tarefa fundamental para o ordenamento urbanístico da capital. Mas são obras caras, que exigem o esforço conjunto das três esferas de governo.

O presidente Lula disse, na terça-feira, que quer voltar a pescar tilápia quando retornar a São Bernardo. São Paulo quer moradia digna para milhares de famílias invasoras de áreas de risco e de mananciais, além de água de boa qualidade para a população.



A geografia diante da política

geography8.gif Saturday, 03 May 08 - 08:40 AM (GMT -04:00)
By Master Santucci in Geografia
A geografia nasceu como Geografia Política. Friedrich Ratzel, sob a influência de Hegel, conferiu ao Estado o seu significado espacial e instaurou um paradigma poderoso do discurso geográfico, libertando-o do risco de confinamento às ciências da natureza. Em 1882, na Antropogeografia, ficava definido o ponto de partida:

“Exatamente porque não é possível conceber um Estado sem território e sem fronteiras é que vem se desenvolvendo rapidamente a geografia política; e, embora mesmo a ciência política tenha freqüentemente ignorado as relações de espaço e a posição geográfica, uma teoria do Estado que fizesse abstração do território não poderia jamais, contudo, ter qualquer fundamento seguro.” (Ratzel, 1990: 73)

O “momento epistemológico” ratzeliano oferecia um vasto horizonte para a nova disciplina. Como explica Korinman, Ratzel ambicionava ensinar a elite política a “... fundamentar espacialmente suas decisões, adquirindo este ‘sentido geográfico’ (geographischer Sinn) que pode ser, senão inculcado, ao menos desenvolvido” (1990: 37). Indubitavelmente, tratava-se de produzir um instrumento intelectual a serviço do Estado, mas com a ressalva crucial de que “... a Geografia Política cujos alicerces são estabelecidos não pode, segundo ele, responder às exigências do poder senão conservando-se como ciência” (1990: 37). Dessa forma, ao nascer, a geografia inscrevia-se na linhagem da filosofia política clássica, contribuindo com um ponto de vista original à reflexão de Maquiavel, Hobbes, Locke, Montesquieu, Rousseau, Tocqueville...

Paradoxalmente, a evolução subseqüente da geografia consistiu na sistemática negação dessa origem, que culminou com a cisão terminológica entre a Geografia Política e a Geopolítica e a expulsão desta última para o gueto reservado aos discursos ideológicos. O papel de principal promotor da acusação coube, como se sabe, a Vidal de La Blache, que, mesmo incursionando eventualmente pelos domínios proibidos, empenhou-se completamente em erguer o edifício conceitual e metodológico de uma disciplina “científica”, isto é, despida de ressonâncias políticas. A operação lablacheana, que refratava a rivalidade entre a França e a Alemanha, logrou confundir duradouramente os termos de um debate amputado no nascimento, dissolvendo o seu objeto:

“Nascida tardiamente como ciência oficial, a geografia teve dificuldades para se desligar, desde o berço, dos grandes interesses. Estes acabaram carregando-a consigo. Uma das grandes metas conceituais da geografia foi justamente (...) esconder o papel do Estado bem como o das classes, na organização da sociedade e do espaço.” (Santos, 1980: 14)

A rota de fuga foi proporcionada pelas noções de região e gênero de vida, que contornaram a encruzilhada perigosa representada pelo Estado e pela política, instaurando uma outra escala de análise. Por essa via, construiu-se uma “ecologia do homem” despojada, tanto quanto possível, das considerações reprováveis concernentes ao poder e ao território. A região-personagem que emergiu do empreendimento lablacheano, dotada das qualidades de um sujeito histórico, continuou atormentando os geógrafos, impondo as suas exigências teóricas, prioridades temáticas e uma linguagem específica. Não é de surpreender que o percurso da geografia a tenha conduzido a privilegiar o “homem”, no lugar da sociedade, procedendo em seguida à sua naturalização. A geografia regional clássica, surgida desse movimento de reação, sobreviveu até mesmo ao seu tempo, atualizando-se nas roupagens modelísticas e sistêmicas fornecidas pelo segundo pós-guerra. 

À margem da corrente principal da disciplina, existiram sempre tentativas isoladas de retomar o fio de uma meada perdida. Entre os franceses, Camille Vallaux parece ter sido o primeiro a estabelecer um diálogo verdadeiro com Ratzel, criticando a influência residual das teses organicistas e identificando o “germanismo” presente na teorização do espaço vital. Jean Brunhes o acompanhou mais tarde, porém numa perspectiva já contaminada pela necessidade de refutar aquilo que se tinha definido como uma “escola alemã”. Jacques Ancel, mesmo negando, ao lado de Albert Demangeon, a cientificidade da “geopolítica alemã”, sentiu pessoalmente o peso do novo paradigma dominante, expresso na condenação lançada por Jean Gottmann à sua teoria das fronteiras: “Ainda não seria o caso de qualificar de doutrina uma tentativa infeliz de compromisso entre os métodos franceses e os alemães” (Raffestin, 1993: 20). Ironicamente, foi o próprio Gottmann que, depois, bebeu na fonte de Ratzel para escrever a sua La politique des États et leur géographie, na qual nega pateticamente a inspiração óbvia.

“La Geopolitik est une science allemande” — esta fórmula excludente de Ancel antecipou uma atitude rejeicionista que se tornaria quase consensual desde a integração de Karl Haushofer e seu grupo ao nacional-socialismo de Hitler. O confronto entre as visões de mundo de dois Estados, que ecoava uma guerra e anunciava outra, foi traduzido intelectualmente, por um dos contendores, como oposição entre ciência e ideologia. A cisão terminológica materializava a ruptura do diálogo. No veredicto inapelável de Demangeon:

“A Geopolítica é uma fraude, uma máquina de guerra; se ela pretende figurar entre as ciências, já é tempo que retorne à Geografia Política.” (Korinman, 1990: 271)

O ambiente de crispação que precedeu a Segunda Guerra Mundial e, em seguida, a purgação do nazismo anestesiaram a crítica e aplainaram o caminho para a consolidação do maniqueísmo. Nesse processo, não foi pequena a contribuição do pensamento comunista. Desde a invasão da União Soviética pela Alemanha até o imediato pós-guerra, a estratégia da “união nacional antifascista” refletiu-se intelectualmente na adesão interessada à dicotomia francesa. Mais tarde, a política de “coexistência pacífica” de Kruschev reativou essa postura, antes que o clima da Guerra Fria pudesse gerar mais que esparsas denúncias das “geopolíticas” das democracias ocidentais. Em nome da ciência, a geopolítica foi expulsa do paraíso e a geografia foi imunizada contra a contaminação da política. A tradição predominante da geografia perdeu de vista, ao longo dessa trajetória, a reflexão sobre o Estado.

Atualmente, o justificado interesse pelos fenômenos da globalização fez surgir, não apenas entre os geógrafos, uma conclusão ousada e definitiva, que suprime o problema teórico: o mito do Estado sem poder. A argumentação que sustenta essa nova sabedoria foi parodiada de forma mordaz por uma publicação liberal:

“O Estado-Nação não é mais o que costumava ser. Ignorado pelos mercados globais de capital, transigente com as corporações multinacionais, à mercê dos mísseis intercontinentais, a pobre coisa pode apenas olhar para o passado, nostálgica dos seus dias de gloria, um século atrás, quando todos sabiam o significado de John Bull e Marianne e Germania e Tio Sam. Parece inconcebível que tão diminuída criatura possa por muito tempo continuar sendo a unidade básica das relações internacionais, a entidade que firma tratados, participa de alianças, desafia inimigos, vai à guerra. Não estará, seguramente, o Estado-Nação a caminho de se dissolver em algo maior, mais poderoso, mais capaz de encarar as conseqüências da tecnologia moderna: alguma coisa que será a nova e poderosa unidade básica do mundo de amanhã ?” (The Economist, 23 dez. 1995: 15).

Trata-se de nova melodia aplicada a uma partitura já antiga. Durante a Guerra Fria, o argumento consistia em contrapor a tecnologia militar da era nuclear ao isolamento e autonomia tradicionais do Estado territorial. O exemplo mais célebre desse ponto de vista foi fornecido por John H. Herz, com o seu Rise and Demise of the Territorial State, que enxergava um futuro muito limitado para as “soberanias fechadas” dos Estados (Costa, 1992: 238-240). Porém, quando o próprio Herz reconsidera, em termos muito diferentes, a sua velha tese, no The Territorial State Revisited, outros reorganizam o argumento, substituindo os vetores balísticos pelos mercados de capitais.

Na geografia, a descoberta serviu como meio de realimentação das abordagens economicistas, muitas das quais de inspiração declaradamente marxista, que exibem uma notória incapacidade de apreender a dimensão política dos fenômenos de configuração do espaço. Uma das suas conseqüências, tendo em vista o arcaísmo da região lablacheana, foi a de suscitar a emergência de discursos dualistas que se sustentam na pendularidade entre o global e o local. Essa “teoria dos lugares”, quando apartada do conceito de território, perde grande parte da sua força explicativa, que dependeria da mediação indispensável do Estado. Porque o Estado nacional está vivo e, mais que isso, revitalizado pelas necessidades postas por uma economia cada vez mais “global”. Não se trata apenas de observar, no plano puramente econômico, que os investimentos públicos continuam variando largamente em função das opções políticas das diferentes sociedades, ou mesmo de sublinhar que tais investimentos, em média, cresceram ao invés de diminuir enquanto se aprofunda a “globalização”. O importante consiste em compreender que o Estado nacional representa a única instância capaz de conduzir o próprio processo de globalização, por meio de decisões políticas cujas conseqüências definem os ritmos e as formas de integração internacional dos mercados. Alguns geógrafos compreenderam perfeitamente esse nexo, capacitando-se para afirmar que “o Estado constitui a sociedade global dos nossos dias” (Britto, 1986: 9).

O colapso do chamado bloco socialista forneceu um outro argumento para os arautos da nova ortodoxia: o do suposto fim das ideologias que dividiram os Estados segundo diferentes visões de mundo. Aqui, novamente, o mais importante não é refutar diretamente a falácia, ou acentuar que as nações têm suficientes motivos de confrontação para prescindir dos estímulos ideológicos. Realmente significativo é observar que não se inventou qualquer substituto para o Estado nacional na produção de identidades coletivas capazes de manter unidas as sociedades. Só o Estado nacional forneceu esse extraordinário, e de certa forma misterioso, poder de coesão que legitima os governos através do consentimento dos governados:

“O Estado-Nação é o lugar onde as pessoas se sentem ligadas por um vínculo natural, como a língua ou a religião compartilhadas, ou alguma outra coisa forte o suficiente para mantê-las unidas e sentindo-se diferentes de outros povos: “nós”, não “eles”. O Estado-Nação é a política na primeira pessoa do plural. O seu governo pode falar pelo povo porque ele é parte do “nós”. Ele procede da nação.” (The Economist, 23 dez. 1995: 17)

Nacionalismo é o nome desse poder coesivo e legitimador. O mistério que o envolve deriva do relativo desconhecimento dessa “alguma outra coisa” — não é a religião, nem a língua , nem mesmo a cultura ou tradição — compartilhada pela nação e sem a qual ela não existiria. Na verdade, o algo mais é tudo: o vínculo nacional é o resultado de uma operação criadora, que manipula história e geografia, tempo e espaço, para gerar uma nação onde antes existia, quando muito, uma frágil zona cultural.

Bibliografia

BRITTO, Luiz Navarro de. Política e espaço regional. São Paulo, Nobel, 1986.

COSTA, Wanderley Messias da. Geografia política e geopolítica. São Paulo, Hucitec-Edusp, 1992.

KORINMAN, Michel. Quand l’Allemagne pensait le monde. Paris, Fayard, 1990.

RAFFESTIN, Claude. Por uma geografia do poder. São Paulo, Ática, 1993.

RATZEL, Friedrich. Geografia do homem (Antropogeografia). In: MORAES, A.C.R. (org.) Ratzel. São Paulo, Ática, 1990.

SANTOS, Milton. Por uma geografia nova. São Paulo, Hucitec, 1980.



Formações vegetais

geography8.gif Tuesday, 29 April 08 - 10:22 PM (GMT -04:00)
By Master Santucci in Geografia

As paisagens vegetais do Brasil podem ser classificadas em formações florestais, complexas, campestres e litorâneas, de acordo com a geógrafa Dora Amarante Romariz.




Fonte - iG Educação



O que sabemos realmente sobre a Teoria de PA/PG de Malthus

geography8.gif Thursday, 03 April 08 - 08:59 AM (GMT -04:00)
By Master Santucci in Geografia

A primeira aceleração do crescimento populacional coincide com a consolidação do sistema capitalista e o advento da Revolução Industrial, durante os séculos XVIII e XIX. Nos países que se industrializavam, a produção de alimentos aumentou e a população que migrava do campo encontrava na cidade uma situação socioeconômica e sanitária muito melhor. Assim, a mortalidade se reduziu e os índices de crescimento populacional se elevaram.

Entre as teorias demográficas surgidas na época, destacou-se a de Thomas Malthus, que ficou conhecida como malthusianismo. Analisando a relação entre a produção de meios de subsistência e a evolução demográfica nos EUA e na Europa, Malthus concluiu que o crescimento populacional excedia a capacidade da terra de produzir alimentos. Enquanto o crescimento populacional tenderia a seguir um ritmo de progressão geométrica, a produção de alimentos cresceria segundo uma progressão aritmética. Assim, a população tenderia a crescer além dos limites de sua sobrevivência, e disso resultariam a fome e a miséria.

Diante dessa constatação e para evitar uma “catástrofe”, Malthus propôs uma “restrição moral” aos nascimentos, o que significaria: proibir o casamento entre pessoas muito jovens; limitar o número de filhos entre as populações mais pobres; elevar o preço das mercadorias e reduzir os salários, a fim de pressionar os mais humildes a Ter uma prole menos numerosa.

Ao lançar suas idéias, Malthus desconsiderou as possibilidades de aumento da produção agrícola com o avanço tecnológico. Aos poucos essa teoria foi caindo em descrédito e desmentida pela própria realidade.

Os neomalthusianos

A Segunda aceleração do crescimento populacional ocorreu a partir de 1950, particularmente nos países subdesenvolvidos.

Esse período, imediatamente posterior à Segunda Guerra Mundial, foi marcado pelo surgimento de novos países independentes africanos e asiáticos e por grandes conquistas na área da saúde, como a produção de antibióticos e de vacinas contra uma série de doenças. Tais conquistas se difundiram pelos países subdesenvolvidos graças a atuação de entidades internacionais de ajuda e cooperação, como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Cruz Vermelha Internacional. Além disso, com o processo de expansão de empresas multinacionais grandes laboratórios farmacêuticos se instalaram nos países subdesenvolvidos que se industrializavam. Os remédios se tornaram mais acessíveis e baratos.

Esse processo denominado revolução médico-sanitária, incluiu também a ampliação dos serviços médicos, as campanhas de vacinação, a implantação de postos de saúde pública em zonas urbanas e rurais e a ampliação das condições de higiene social. Todos esses fatores permitiram uma acentuada redução nas taxas de mortalidade, principalmente a infantil, que até então eram muito elevadas nos países subdesenvolvidos. A diminuição da mortalidade e a manutenção das altas taxas de natalidade resultaram num grande crescimento populacional, que atingiu seu apogeu na década de 1960 e ficou conhecido como explosão demográfica.

Com a nova aceleração populacional, voltaram a surgir estudos baseados nas idéias de Malthus, dando origem a um conjunto de teorias e propostas denominadas neomalthusianas. Novamente, os teóricos explicavam o subdesenvolvimento e a pobreza pelo crescimento populacional, que estaria provocando a elevação dos gastos governamentais com os serviços de educação e saúde. Isso comprometeria a realização de investimentos nos setores produtivos e dificultaria o desenvolvimento econômico. Para os neomalthusianos, uma população numerosa seria um obstáculo ao desenvolvimento e levaria ao esgotamento dos recursos naturais, ao desemprego e à pobreza. Enfim, ao caos social.

Para os neomalthusianos, a desordem social poderia levar os países subdesenvolvidos a se alinhar com os países socialistas, que se expandiam naquele momento. Para evitar o risco, propunham a adoção de políticas de controle de natalidade, que se popularizaram com a denominação de “planejamento familiar”

Essas políticas são adotadas até hoje e conduzidas pela ONU (Organização das Nações Unidas) e o FMI (Fundo Monetário Internacional), que condiciona a aprovação de empréstimos para os países subdesenvolvidos à adoção de programas de controle de natalidade, que são financiados pelo Banco Mundial (BIRD).

O planejamento familiar é feito por entidades privadas e públicas, que se associam à indústria farmacêutica e à classe médica e recebem apoio dos meios de comunicação. O controle populacional é realizado de várias maneiras, que vai da distribuição gratuita de anticoncepcionais até a esterilização em massa de populações pobres (Índia, Colômbia e Brasil).

MALTHUS TINHA RAZÃO?

O que teria levado Malthus a desenvolver um ponto de vista pessimista quanto ao crescimento populacional? Malthus percebia que Inglaterra e França, além dos Estados Unidos, tinham suas populações duplicadas a cada 25 anos. Por esta razão, acreditava que não haveria condições de a produção de alimentos atender às necessidades da população. O resultado seria a fome, as mortes em massa, as doenças, além de forte crise social. Alguns acontecimentos revelaram que as previsões de Malthus não se concretizariam:- A emigração fez com que cerca de 20 milhões de pessoas deixassem as Ilhas Britânicas entre 1815 e 1914. Seu destino: Estados Unidos, Canadá, Austrália e África do Sul. Seu objetivo: terras, trabalho, melhores condições de existência. destino: Estados Unidos, Canadá, Austrália e África do Sul. Seu objetivo: terras, trabalho, melhores condições de existência. 

- A Revolução Agrícola imprimiu um crescimento da produção agrícola que beneficiou um número maior de pessoas. A mortalidade caiu, a população aumentou, pois as colônias e ex-colônias britânicas asseguravam o abastecimento de carne e cereais.

- A Revolução Industrial proporcionou um aumento sensível da riqueza. Ao longo de todo o século XIX, por exemplo, enquanto a população britânica aumentou 4 vezes, o Produto Interno Bruto cresceu 14 vezes.

A primeira metade do século XX desenrolou-se sem que os temores de uma explosão populacional se abatessem em qualquer um dos continentes. Terminada a Segunda Guerra Mundial, os chamados países subdesenvolvidos passaram a viver uma nova tendência demográfica, caracterizada por rápido crescimento populacional em curto espaço de tempo.

Outra forma de pensar a Teoria de Malthus

Em 1798, Malthus publicou seu Ensaio sobre a população, no qual desenvolveu uma teoria demográfica que se apoiava basicamente em dois postulados:

1) crescimento da população;

2) produção de alimentos.

A população, se não ocorrerem guerras, epidemias, desastres naturais, etc., tenderia a duplicar a cada 25 anos. Ela cresceria, portanto, em progressão geométrica (2, 4, 8, 16, 32...) e constituiria um fator variável, que cresceria sem parar.

O crescimento da produção de alimentos ocorreria apenas em progressão aritmética (2, 4, 6, 8, 10...) e possuiria certo limite de produção, por depender de um fator fixo: a própria extensão territorial dos continentes.

Ao considerar esses dois postulados, Malthus concluiu que o ritmo de crescimento populacional seria mais acelerado que o ritmo de crescimento da produção de alimentos (progressão geométrica versus progressão  aritmética). Previu também que um dia as possibilidades de aumento da área cultivada estariam esgotadas, pois todos os continentes estariam plenamente ocupados pela agropecuária e, no entanto, a população mundial ainda continuaria crescendo. 

Conseqüências da dinâmica demográfica malthusiana

A conseqüência disso seria a fome, ou seja, a falta de alimentos para abastecer as necessidades de consumo do planeta, e as mortes, doenças, guerras civis, disputas por territórios, etc. 

Proposta de Malthus

Para evitar esse flagelo, Malthus, que além de economista era pastor da Igreja Anglicana, na época contrária aos métodos anticoncepcionais, propunha que as pessoas só tivessem filhos se possuíssem terras cultiváveis para poder alimentá-los.

Falhas da teoria de Malthus

Hoje, verifica-se que suas previsões não se concretizaram: a população do planeta não duplicou a cada 25 anos, e a produção de alimentos se acelerou graças ao desenvolvimento tecnológico. Mesmo que se considere uma área fixa de cultivo, a quantidade produzida aumentou, uma vez que a produtividade (quantidade produzida por área; toneladas de arroz por hectare, por exemplo) também vem aumentando ao longo das décadas.

Por que Malthus errou?

Essa teoria, quando foi elaborada, parecia muito consistente. Os erros de previsão estão ligados principalmente às limitações da época para a coleta de dados, já que Malthus tirou suas conclusões partindo da observação do comportamento demográfico em uma determinada região, com população predominantemente rural, e as considerou válidas para todo o planeta no transcorrer da história, sem considerar os progressos técnicos advindos da natural evolução humana. Não previu os efeitos decorrentes da urbanização na evolução demográfica e do progresso tecnológico aplicado à agricultura.

Reflexões finais

Desde que Malthus apresentou sua teoria, são comuns os discursos que relacionam de forma simplista a ocorrência da fome no planeta ao crescimento populacional. A fome que castiga mais da metade da população mundial é resultado da má distribuição da renda e não da carência na produção de alimentos. Nos primeiros anos do século XXI, a produção agropecuária mundial era suficiente para alimentar cerca de 9 bilhões de pessoas, enquanto a população do planeta era pouco superior a 6 bilhões. A fome existe porque as pessoas não possuem o dinheiro necessário para suprir suas necessidades básicas, fenômeno este facilmente observável no Brasil, onde, apesar do enorme volume de alimentos exportados e de as prateleiras dos supermercados estarem sempre lotadas, a panela de muitos trabalhadores permanece vazia ou sua alimentação é muito mal balanceada.

Bibliografia:

MOREIRA, J.C. SENE, Eustáquio. Geografia Geral e do Brasil: espaço geográfico e globalização. São Paulo : Scipione, 2005. p.431.

Saiba mais

- www.economiabr.net/biografia/malthus.html

- http://www.frigoletto.com.br/GeoPop/Malthusianismo

- http://pt.wikipedia.org/wiki/Thomas_Malthus

 



As ciências sociais na época da globalização

geography8.gif Saturday, 29 March 08 - 08:56 PM (GMT -04:00)
By Master Santucci in Geografia
Octavio Ianni, especial para o Jornal da USP

A globalização do mundo pode ser vista como um processo histórico-social de vastas proporções, abalando mais ou menos drasticamente os quadros sociais e mentais de referência de indivíduos e coletividades. Rompe e recria o mapa do mundo, inaugurando outros processos, outras estruturas e outras formas de sociabilidade, que se articulam ou impõem aos povos, tribos, nações e nacionalidades. Muito do que parecia estabelecido em termos de conceitos, categorias ou interpretações, relativos aos mais diversos aspectos da realidade social, parece perder significado, tornar-se anacrônico ou adquirir outros sentidos. Os territórios e as fronteiras, os regimes políticos e os estilos de vida, as culturas e as civilizações parecem mesclar-se, tensionar-se e dinamizar-se em outras modalidades, direções ou possibilidades. As coisas, as gentes e as idéias movem-se em múltiplas direções, desenraízam-se, tornam-se volantes ou simplesmente desterritorializam-se. Alteram-se as sensações e as noções de próximo e distante, lento e rápido, instantâneo e ubíquo, passado e presente, atual e remoto, visível e invisível, singular e universal. Está em curso a gênese de uma nova totalidade histórico-social, abarcando a geografia, a ecologia e a demografia, assim como a economia, a política e a cultura. As religiões universais, tais como o budismo, o tacoísmo, o cristianismo e o islamismo, tornam-se universais também como realidades histórico-culturais. O imaginário de indivíduos e coletividades, em todo o mundo, passa a ser influenciado, muitas vezes decisivamente, pela mídia mundial; uma espécie de "príncipe eletrônico", do qual nem Maquiavel nem Gramasci suspeitaram.

É assim que os indivíduos e as coletividades, compreendendo povos, tribos, nações e nacionalidades, ingressam na era do globalismo. Trata-se de um novo "ciclo" da história, no qual se envolvem uns e outros, em todo o mundo. Ao lado de conceitos tais como "mercantilismo", "colonialismo" e "imperialismo", além de "nacionalismo" e "tribalismo", o mundo moderno assiste à emergência do "globalismo", como nova e abrangente categoria histórica e lógica. O globalismo compreende relações, processos e estruturas de dominação e apropriação desenvolvendo-se em escala mundial. São relações, processos e estruturas polarizadas em termos de integração e acomodação, assim como de fragmentação e contradição, envolvendo sempre as condições e as possibilidades de soberania e hegemonia. Todas as realidades sociais, desde o indivíduo à coletividade, ou povo, tribo, nação e nacionalidade, assim como corporação transnacional, organização multilateral, partido político, sindicato, movimento social, corrente de opinião pública, organização religiosa, atividade intelectual e outras passam a ser influenciadas pelos movimentos e pelas configurações do globalismo; e a influenciá-lo. São articulações, integrações, tensões e contradições, envolvendo uns e outros, organizações e instituições, ou as mais diversas realidades sociais, de tal forma que o globalismo pode aparecer mais ou menos decisivamente no modo pelo qual se movem indivíduos e coletividades no novo mapa do mundo.

 

Ruptura histórica

O que está em causa, quando se trata de globalização, é uma ruptura histórica de amplas proporções, com implicações epistemológicas que exigem reflexão. Com as metamorfoses do "objeto" das ciências sociais e a simultânea alteração das possibilidades que se abrem ao "sujeito" da reflexão, colocam-se novos desafios não só metodológicos e teóricos, mas também epistemológicos. O objeto das ciências sociais deixa de ser principalmente a realidade histórico-social nacional, ou o indivíduo em seu modo de ser, pensar, agir, sentir e imaginar. Desde que se evidenciam os mais diversos nexos entre indivíduos e coletividades, ou povos, tribos, nações e nacionalidades, em âmbito mundial, o objeto das ciências sociais passa a ser também a sociedade global. Muito do que é social, econômico, político, cultural, lingüístico, religioso, demográfico e ecológico adquire significação não só extranacional, internacional ou transnacional, mas propriamente mundial, planetário ou global. Quando se multiplicam as relações, os processos e as estruturas de dominação e apropriação, bem como de integração e fragmentação, em escala mundial, nesse contexto estão em causa novas exigências epistemológicas.

Nesse horizonte, alteram-se as condições históricas e teóricas sob as quais se desenvolvem os contrapontos, os nexos, as simultaneidades, as descontinuidades, os desencontros e as tensões entre dado e significado, aparência e essência, parte e todo, passado e presente, história e memória, lembrança e esquecimento, tradição e origem, território e fronteira, lugar e espaço, singular e universal. Alteram-se mais ou menos drasticamente as condições, as possibilidades e os significados do espaço e do tempo, já que se multiplicam as espacialidades e as temporalidades.

Esse o desafio diante do qual se colocam as ciências sociais. Ao lado das suas muitas realizações, são desafiadas a recriar o seu objeto e os seus procedimentos, submetendo muito do conhecimento acumulado à crítica; e avançando para novas ambições. Os cientistas sociais não precisam mais imaginar o que poderia ser o mundo para estudá-lo. O mundo já é uma realidade social, complexa, difícil, impressionante e fascinante, mas pouco conhecida.

Já não se trata mais apenas da controvérsia modernidade e pós-modernidade, ou universalismo e relativismo, individualismo e holismo, pequeno relato e grande relato, micro-teoria e macro-teoria, mas também de megateoria. A envergadura das relações, processos e estruturas de âmbito mundial, com as suas implicações locais, nacionais, regionais e mundiais, exige conceitos, categorias ou interpretações de alcance global. Esse o contexto em que se elaboram metáforas e conceitos tais como os seguintes: multinacional, transnacional, mundial, planetário e global; aldeia global, nova ordem econômica mundial, mundo sem fronteiras, terra-pátria, fim da geografia e fim da história; desterritorialização, miniaturização, ubiqüidade das coisas, gentes e idéias, sociedade informática, infovia e internet; sociedade civil mundial, estruturas mundiais de poder, classes sociais transnacionais, globalização da questão social, cidadão do mundo e cosmopolitismo; ocidentalização do mundo, orientalização do mundo, globalização, globalismo, mundo sistêmico, capitalismo global, neoliberalismo, neonazismo, neofascismo, neo-socialismo e modernidade-mundo.

Mais uma vez, as ciências sociais revelam-se formas de autoconsciência científica da realidade social. Neste caso, uma realidade social múltipla, desigual e contraditória, ou articulada e fragmentária. São muitos, inúmeros, os estudos de todos os tipos, sobre todos os aspectos da realidade social, produzidos em todo o mundo, em todas as línguas. Há toda uma biblioteca de Babel formada com os livros e as revistas de ciências sociais que se publicam, conformando uma visão múltipla, polifônica, babélica ou fantástica das mais diversas formas de autoconsciência, compreensão, explicação, imaginação e fabulação; tratando de entender o presente, repensar o passado e imaginar o futuro.



A paisagem na geografia

geography8.gif Sunday, 16 March 08 - 08:04 AM (GMT -04:00)
By Master Santucci in Geografia

É comum encontrar pessoas que pensam que saber Geografia é aprender muitos dados, saber qual é população de todas as cidades do mundo e poder citar e localizar todos os novos Estados africanos. Algumas pessoas acham que a Geografia tem a ver com os mapas e também com a descrição de viagens pelo mundo.

Cada uma dessas crenças populares tem algo de verdadeiro. A localização, os dados e os mapas são recursos que a Geografia utiliza, recursos esses que geram a habilidade de “olhar geograficamente ”, isto é, a capacidade de observar e interpretar os distintos processos naturais e sociais, tanto diretamente na realidade, como por meio de mapas, fotos aéreas, imagens de satélites e outras representações do mundo real.

A observação e a interpretação da fisionomia da paisagem - que é a porção do lugar que a vista alcança - faz parte da essência do saber da Geografia.

Olhar e pensar sobre o que está presente em cada rua de sua cidade, em cada campo plantado, em cada montanha ou floresta pode ajudar a compreender como natureza e a sociedade se combinam para moldar as diferentes formas que existem na superfície da Terra.

A noção de paisagem, para a Geografia, não deve ser confundida com a do paisagismo, que está ligada a uma concepção de estética na distribuição de objetos em um jardim ou um parque. Para a ciência geográfica, a paisagem deve ser entendida como indicadora de conteúdo vivo e de processos dinâmicos, isto é, em constante transformação.

A interpretação da paisagem para a Geografia é a busca da explicação científica de como as formas que observamos são o resultado visível da combinação de processos físicos, biológicos e humanos ou antrópicos (do grego antropos = homem). Percebida por intermédio de uma visão científica, a paisagem ganha uma abordagem com características próprias de um método de pesquisa. Assim, o estudo da paisagem se constitui num dos mais antigos métodos de estudo pertencentes à Geografia.

Tomemos, por exemplo, a observação da vegetação, que é o aspecto mais visível da vida na superfície da Terra. As formações vegetais revelam muitas informações sobre as condições do clima e do solo do lugar. Em uma área tropical, quente e úmida, a existência de uma floresta exuberante e permanentemente verde mostra, quase sempre, que o clima é favorável ao desenvolvimento da vida vegetal. Entretanto, nessas mesmas condições de clima, pode ocorrer também a savana ou o cerrado, o que revela as limitações do solo das áreas tropicais - com estações seca e úmida bem marcadas - para o crescimento das árvores.

Atualmente, os conhecimentos reunidos pela Geografia formam um conjunto de informações diversificadas sobre formas de relevo, diferentes climas e formações vegetais, dados sobre população e atividades econômicas que, embora tomados isoladamente, estão de fato estreitamente vinculados entre si.

Em cada lugar da superfície terrestre, as condições de vida são o resultado de uma interação dos distintos elementos naturais, trabalhados pela atividade humana, com maior ou menor intensidade. Mesmo na Antártida, onde as condições inóspitas de clima dificultam o estabelecimento permanente do homem, as marcas de sua atividade estão presentes no buraco da camada de ozônio que altera as condições naturais do continente gelado.

Porém, independentemente da ação humana, podemos afirmar que as paisagens são também produtos das mais diversas combinações de fenômenos naturais, que apresentam sua própria diversidade, a exemplo do relevo, que aparece em distintas formas e dimensões. Essas formas diferentes de relevo contribuem para criar diferentes paisagens de montanhas ou planaltos.

Por sua vez, as condições climáticas são determinantes para a diversidade das formações vegetais e para o processo de formação dos solos. O clima também está presente nos distintos agentes de erosão, a exemplo das chuvas ou do vento.

Por isso, também é responsável pela modelagem do relevo. Assim, os diferentes processos físicos e biológicos interagem mutuamente na formação do que se chama substrato natural da paisagem.

Por causa das atividades humanas, a paisagem natural vai sofrendo múltiplas modificações no decorrer do tempo, transformando-se numa paisagem humanizada, pela incorporação de elementos culturais.

De acordo com a atividade predominante da população de um lugar, vão se estruturando paisagens de diferentes características, segundo os graus de transformação dos elementos naturais, e conforme a intensidade e a orientação da atividade humana. Desse modo, podemos diferenciar paisagens agrícolas, minerais, industriais e urbanas.

O maior impacto das atividades humanas está presente na paisagem urbana, que é o produto de atividades ligadas à indústria, ao comércio e ao serviço. Isso mostra que a paisagem não é dada para todo o sempre, mas que é objeto de mudança permanente.

É nas cidades que melhor podemos observar a dinâmica da paisagem, dada a velocidade das transformações que ocorrem no espaço urbano.

A cidade é uma espécie museu vivo da história do trabalho e das técnicas desenvolvidas pela sociedade. Casas antigas e modernas, ruas com grandes edifícios comerciais ou pequenas vilas, praças e monumentos mostram que o trabalho humano se incorpora ao espaço em que vivemos, o qual está em constante transformação. Pode-se dizer, então, que as paisagens são como as fotografias que refletem as combinações entre processos naturais e sociais em um espaço geográfico, no decorrer do tempo histórico.

Existem na paisagem indicações muito claras dos processos sociais que as moldam. Um bairro pobre de uma cidade reflete desigualdade social na apropriação da renda, evidenciada nas ruas sem calçamento, nas praças abandonadas, nas valas abertas por onde correm os esgotos.

Se soubermos observar e interpretar a paisagem, isso permitirá que tenhamos uma concepção de como o lugar que ocupamos no espaço geográfico é o resultado das condições sociais em que vivemos.

Os mapas sempre foram um meio de representar o espaço geográfico; e as pinturas e fotografias procuravam mostrar as distintas paisagens existentes nos lugares representados. Os antigos atlas e compêndios de Geografia mostram muitos mapas e ilustrações que procuram refletir a diversidade de paisagens.

Hoje, graças aos avanços técnicos, a Geografia dispõe de novos meios de reconhecimento e coleta de informações, que potenciam a capacidade de observação e representação do geógrafo.

Graças às fotografias aéreas e às imagens de satélite, houve uma fusão entre o mapa e a imagem tomada no mundo real, ampliando os limites do olho humano por meio do sensoriamento remoto, isto é, podemos dispor de sensores - como os nossos olhos - controlados remotamente e colocados a milhares de quilômetros da superficie da Terra, observando constantemente o que se passa no planeta.

As imagens de sensoriamento remoto estão se tornando cada vez mais parte de nosso dia-a-dia. A previsão meteorológica é ilustrada nos jornais e na televisão por meio de imagens de satélites meteorológicos, assim como regiões de conflitos internacionais são mostradas na mídia, com imagens obtidas do espaço, do mesmo modo que imagens de satélite passam cada vez mais a ilustrar livros, catálogos, calendários e muitas outras formas de comunicação visual.

As imagens orbitais e as fotografias aéreas vêm servindo de fonte de dados para estudos e levantamentos geológicos, ambientais, agrícolas, florestais, urbanos, oceanográficos, entre outros. Com ganho de tempo, elas permitem identificar, circunscrever e descrever as unidades de paisagens unidades de paisagens unidades de paisagens unidades de paisagens unidades de paisagens, como florestas, conjuntos de montanhas ou desertos existentes na superfície da Terra, que se apresentam com cores e texturas diferenciadas em uma imagem de satélite.

Na realidade, o sensoriamento remoto é uma nova forma de observação da paisagem que amplia a compreensão da Geografia sobre os processos globais, embora jamais substitua completamente a observação direta no campo, isto é, o olhar sobre a paisagem.

João Santucci



A Geografia na sala de aula: a importância dos materiais didáticos

geography8.gif Sunday, 16 March 08 - 07:52 AM (GMT -04:00)
By Master Santucci in Geografia

Mesmo antes do ingresso na escola, a criança observa, pergunta e procura explicar o mundo em que vive.  Esse modo de ler nosso dia-a-dia está impregnado de Geografia.  Na escola é importante que o aluno possa ampliar, rever, reformular e sistematizar as noções que construiu, de forma espontânea, através da aprendizagem de conteúdos da Geografia.    

Esse processo de ampliação, reformulação e sistematização é sempre inacabado ao longo da vida de uma pessoa, mas a escola tem um papel importante na sua consolidação.

 

 



De outros espaços

geography8.gif Sunday, 16 March 08 - 07:06 AM (GMT -04:00)
By Master Santucci in Geografia

Michel Foucault

Conferência proferida por Michel Foucault no Cercle d'Études Architecturales, em 14 de Março de 1967.

Como sabemos, a história é a obsessão do século dezenove. Da temática do desenvolvimento e da suspensão, da crise e do ciclo, o tema da pesada herança dos mortos e da ameaça da glaciação do mundo devido à incessante acumulação do passado, depreende-se que o século dezenove encontrou a fonte dos seus recursos mitológicos no segundo princípio da termodinâmica. A nossa época talvez seja, acima de tudo, a época do espaço. Nós vivemos na época da simultaneidade: nós vivemos na época da justaposição, do próximo e do longínquo, do lado-a-lado e do disperso. Julgo que ocupamos um tempo no qual a nossa experiência do mundo se assemelha mais a uma rede que vai ligando pontos e se intersecta com a sua própria meada do que propriamente a uma vivência que se vai enriquecendo com o tempo. Poderíamos dizer, talvez, que os conflitos ideológicos que se traduzem nas polêmicas contemporâneas se opõem aos pios descendentes do tempo e aos estabelecidos habitantes do espaço. O estruturalismo, ou pelo menos aquilo que é agrupado sob este nome demasiadamente vago, não é mais do que um esforço para estabelecer, entre aqueles elementos que poderiam ter sido associados num eixo temporal, um conjunto de relações que os faz aparecer justapostos, contrapostos, implícitos uns pelos outros – em suma, o que faz esses elementos aparecerem com uma determinada configuração. Na verdade, o estruturalismo não implica uma negação do tempo; mas acarreta uma certa maneira de lidar com aquilo a que chamamos tempo e com aquilo a que chamamos história.

É, porém necessário notar que o espaço, o que nos surge como horizonte das preocupações, teorias e sistemas, não é uma inovação; o espaço em si tem uma história na experiência Ocidental e é impossível esquecer o nó profundo do tempo com o espaço. Podemos dizer de uma forma muito simplista de traçar a história do espaço, que durante a Idade Média existia um conjunto hierárquico de lugares: numa primeira instância, os lugares imediatamente associados à vida real do homem, com as dicotomias entre lugares sagrados e lugares profanos, lugares protegidos e lugares expostos, lugares urbanos e lugares rurais; nas teorias cosmológicas, existiam os lugares supracelestiais, opondo-se aos celestes e estes, aos terrestres. E ainda havia também lugares onde certas coisas eram colocadas porque tinham sido deslocadas, por sua vez, de uma forma violenta, e, pelo contrário, lugares onde as coisas encontravam as suas base e estabilidade naturais. Estas oposições e intersecções de lugares formavam uma hierarquia acabada e é o que nós podemos indicar, ainda que muito imperfeitamente, como espaço medieval: o espaço em que cada coisa é colocada no seu lugar específico, o espaço da disposição.

Este espaço de disposição, de fixidez, foi aberto por Galileu. O escândalo profundo suscitado pelas suas investigações não foi o fato de ter descoberto, ou melhor, redescoberto que a Terra girava à volta do Sol, mas na constituição do conceito de infinito e, o que é implícito, de um espaço infinitamente aberto. Num espaço desses, os lugares da Idade Média acabam por se dissolver; um lugar de uma coisa não passava afinal de apenas um ponto do seu movimento, assim como a estabilidade dessa coisa não passava afinal da infinita desaceleração do seu movimento. Em outras palavras, Galileu e todo o século dezessete foram os primeiros de todo um movimento que substituiu a localização pela extensão.

Hoje o lugar substitui a extensão que, por sua vez, tinha substituído a disposição. O lugar define-se por relações de proximidade entre certos pontos e elementos; poderemos descrever formalmente essas relações como séries ou grelhas. Além disso, a importância do lugar como uma problemática no trabalho técnico contemporâneo é sobejamente conhecida: o armazenamento de dados ou de resultados intermediarios de um cálculo numa memória; a circulação de elementos distintos com um output aleatório (exemplos simples: o tráfego automobilístico ou os sons da linha de telefone); a identificação de elementos assinalados e codificados que fazem parte de um todo, construído aleatoriamente ou segundo classificações, sejam elas simples ou múltiplas.

De uma forma ainda mais concreta, o problema da disposição das coisas surge à Humanidade na forma da demografia. Este problema do lugar humano ou do lugar vivo não se reduz apenas a saber se existirá ou não espaço para todas as pessoas no mundo – que é decerto importante – mas também saber que relações de proximidade, que tipos de armazenamento, circulação, marcação e classificação de elementos humanos devem ser adotados em determinadas situações para atingir determinados fins. A nossa época é tal que os lugares tornam-se, para nós, uma forma de relação entre vários lugares.

Em todos os casos, acredito que a ansiedade da nossa época tem a ver fundamentalmente com o espaço, muito mais do que com o tempo. O tempo aparece-nos como apenas uma das várias operações distributivas que são possíveis entre os elementos que estão espalhados pelo espaço.

Agora, apesar de toda a técnica desenvolvida de apropriação do espaço, apesar de toda uma rede de relações entre saberes que nos ajuda a delimitá-lo ou formalizá-lo, o espaço contemporâneo não foi ainda totalmente dessacralizado (pelo que parece, uma atitude aparentemente diferente da que foi tomada perante o tempo, arrancado da esfera do sagrado no século dezenove). Na verdade, uma certa dessacralização do espaço ocorreu (sublinhada pela obra de Galileu), mas ainda não atingimos o ponto ótimo dessa dessacralização. A nossa vida ainda se regra por certas dicotomias inultrapassáveis, invioláveis, dicotomias as quais as nossas instituições ainda não tiveram coragem de dissipar. Estas dicotomias são oposições que tomamos como dadas à partida: por exemplo, entre espaço público e espaço privado, entre espaço familiar e espaço social, entre espaço cultural e espaço útil, entre espaço de lazer e espaço de trabalho. Todas estas oposições se mantêm devido à presença oculta do sagrado.

A obra monumental de Bachelard e as descrições dos fenomenologistas demonstraram-nos que não habitamos um espaço homogêneo e vazio mas, bem pelo contrário, um espaço que está totalmente imerso em quantidades e é ao mesmo tempo fantasmático. O espaço da nossa percepção primária, o espaço dos nossos sonhos e o espaço das nossas paixões encerram em si próprios qualidades à primeira vista intrínsecas: há um espaço luminoso, etéreo e transparente, ou um espaço tenebroso, imperfeito e que inibe os movimentos; um espaço do cume, dos píncaros, e um espaço do baixo, da lama; há ainda um espaço flutuante como água espargindo e um espaço que é fixo como uma pedra, congelado como cristal. No entanto, todas estas análises, ainda que fundamentais para uma certa reflexão do nosso tempo, dizem respeito, logo à partida, ao espaço interno. Eu preferiria debruçar-me sobre o espaço externo.

O espaço no qual vivemos, que nos leva para fora de nós mesmos, no qual a erosão das nossas vidas, do nosso tempo e da nossa história se processa num contínuo, o espaço que nos mói, é também, em si próprio, um espaço heterogêneo. Por outras palavras, não vivemos numa espécie de vácuo, no qual se colocam indivíduos e coisas, num vácuo que pode ser preenchido por vários tons de luz. Vivemos, sim, numa série de relações que delineiam lugares decididamente irredutíveis uns aos outros e que não se podem sobre-impor.

É evidente que podemos tentar descrever estes diferentes lugares apenas pela série de relações que definem cada um destes determinados lugares. Por exemplo, descrevendo a série de relações que definem os lugares de transporte, ruas, trens (um trem é um amálgama extraordinário de relações porque é algo que atravessamos, é também algo que nos leva de um ponto a outro, e por fim é também algo que passa por nós). Poderíamos ainda descrever, através dos aglomerados de relações que permitem a sua definição, os lugares de relaxamento temporário – cafés, cinemas, praias. Da mesma forma, poderíamos descrever, através da sua rede de relações, os lugares fechados ou semi-fechados de descanso – a casa, o quarto, a cama, etc.

Mas, de todos estes lugares, interessam-me mais os que se relacionam com todos os outros lugares, de uma forma que neutraliza, secunda, ou inverte a rede de relações por si designadas, espelhadas e refletidas. Espaços que se encadeiam uns nos outros, mas, entretanto contradizem todos os outros. São de dois tipos principais.

Em primeiro lugar, existem as utopias. As utopias são lugares sem lugar real. São lugares que têm uma relação analógica direta ou invertida com o espaço real da Sociedade. Apresentam a sociedade numa forma aperfeiçoada, ou totalmente virada ao contrário. Seja como for, as utopias são espaços fundamentalmente irreais.

Há também, provavelmente em todas as culturas, em todas as civilizações, espaços reais – espaços que existem e que são formados na própria fundação da sociedade - que são algo como contra-lugares, espécies de utopias realizadas nas quais todos os outros lugares reais dessa dada cultura podem ser encontrados, e nas quais são, simultaneamente, representados, contestados e invertidos. Este tipo de lugares está fora de todos os lugares, apesar de se poder obviamente apontar a sua posição geográfica na realidade. Devido a estes lugares serem totalmente diferentes de quaisquer outros lugares, que eles refletem e discutem, chamá-los-ei, por contraste às utopias, heterotopias. Julgo que entre as utopias e este tipo de lugares, estas heterotopias, poderá existir uma espécie de experiência de união ou mistura análoga à do espelho. O espelho é, afinal de contas, uma utopia, uma vez que é um lugar sem lugar algum. No espelho, vejo-me ali onde não estou, num espaço irreal, virtual, que está aberto do lado de lá da superfície; estou além, ali onde não estou, sou uma sombra que me dá visibilidade de mim mesmo, que me permite ver-me ali onde sou ausente.

   

Assim é a utopia do espelho. Mas é também uma heterotopia, uma vez que o espelho existe na realidade, e exerce um tipo de contra-ação à posição que eu ocupo. Do lugar em que me encontro no espelho apercebo-me da ausência no lugar onde estou, uma vez que eu posso ver-me ali. A partir deste olhar dirigido a mim próprio, da base desse espaço virtual que se encontra do outro lado do espelho, eu volto a mim mesmo: dirijo o olhar a mim mesmo e começo a reconstituir-me a mim próprio ali onde estou. O espelho funciona como uma heterotopia neste momentum: transforma este lugar, o que ocupo no momento em que me vejo no espelho, num espaço a um só tempo absolutamente real, associado a todo o espaço que o circunda, e absolutamente irreal, uma vez que para nos apercebermos desse espaço real, tem de se atravessar esse ponto virtual que está do lado de lá.

Sendo assim as heterotopias, como é que podem ser descritas e que sentido assumem elas? Poderemos apelar para uma descrição sistemática - não diria uma "ciência", pois esse é um termo demasiado em voga nos dias de hoje - uma descrição que numa dada sociedade tomará como objeto o estudo, a análise, a descrição e a "leitura" (como alguns gostariam de dizer) destes espaços diferentes, destes lugares-outros. Sendo uma contestação do espaço que vivemos simultaneamente mítica e real, esta descrição poderá ser intitulada de heterotopologia. O seu primeiro princípio é o de que não há nenhuma cultura no mundo que não deixe de criar as suas heterotopias. É uma constante de qualquer e todo o grupo humano. Mas é evidente que as heterotopias assumem variadíssimas formas e, provavelmente, não se poderá encontrar uma única forma universal de heterotopia. Poderemos, no entanto, classificá-las em duas categorias.

Nas ditas sociedades primitivas, há um tipo de heterotopia que eu chamaria de heterotopia de crise, id est, lugares privilegiados ou sagrados ou proibidos, reservados a indivíduos que estão, em relação à sociedade e ao ambiente humano que ocupam, numa situação de crise: adolescentes, mulheres menstruadas ou grávidas, idosos, etc. Na nossa sociedade, estas heterotopias de crise têm desaparecido progressivamente, apesar de ainda se puderem encontrar algumas remanescências dos mesmos. Por exemplo, o colégio interno, na sua forma novecentista, ou o serviço militar para os jovens rapazes, são algo que desempenham esse papel, visto que as primeiras manifestações de virilidade sexual devem ocorrer "algures" que não o lar ou lugar de origem. E até meados do século vinte, existia para as moças a "viagem de lua-de-mel", que é uma tradição de temática antiga. A defloração das jovens moças deveria ocorrer "nenhures" e, quando isso acontecia no comboio ou no hotel da "lua-de-mel", acontecia de fato nesse lugar de "nenhures", nessa heterotopia sem limites geográficos.

Mas estas heterotopias de crise têm desaparecido dos nossos dias e sido substituídas, parece-me, pelo que poderíamos chamar heterotopias de desvio: aquelas nas quais os indivíduos, cujos comportamentos são desviantes em relação às norma ou média necessárias, são colocados. Exemplos disto serão as casas de repouso ou os hospitais psiquiátricos, e, claro está, as prisões. Talvez devêssemos acrescentar as casas de terceira idade, que se encontram numa fronteira diáfana entre a heterotopia de crise e heterotopia de desvio: afinal de contas, a terceira idade é uma crise, mas também um desvio, visto que na nossa sociedade, sendo o lazer a regra, a ociosidade é uma espécie de desvio.

O segundo princípio desta descrição das heterotopias é que uma sociedade, à medida que a sua história se desenvolve, pode atribuir a uma heterotopia existente uma função diversa da original; cada heterotopia tem uma função determinada e precisa na sua sociedade, e essa mesma heterotopia pode, de acordo sincrônico com a cultura em que se insere, assumir uma outra função qualquer.

Exemplificarei com a estranha heterotopia que é o cemitério. Um cemitério é, em absoluto, um lugar diverso dos espaços culturais comuns. É, porém, um espaço intimamente relacionado com todos os outros lugares da cidade ou estado ou sociedade, etc., uma vez que cada indivíduo e cada família tem familiares no cemitério. Na cultura ocidental o cemitério sempre existiu, apesar de ter atravessado mudanças radicais. Até o fim do século dezoito, o cemitério encontrava-se no centro da cidade, geminado com a igreja. Existia uma hierarquização dos possíveis túmulos: em primeiro lugar, existia a casa mortuária na qual os corpos perdiam os seus traços particulares, depois, alguns túmulos individuais e, no fim, os que se encontravam dentro da igreja. Estes últimos dividiam-se em dois grupos: as simples lápides inscritas e os mausoléus com estátuas. Este cemitério, que se abrigava no espaço sagrado da igreja, tomou uma direção bastante diferente nas civilizações modernas. Curiosamente, numa época em que essas civilizações se assumem como - e digo-o de uma forma franca - "ateísticas", a cultura ocidental desenvolveu aquilo a que se chamará culto dos mortos.

Vejamos: era natural que, num tempo em que se cria realmente na ressurreição dos corpos e na imortalidade da alma, não se preocupassem em demasia com os despojos do cadáver. Contrariamente, no momento em que já não se crê com tanta segurança que se tem uma alma ou que o corpo alguma vez recupere a vida, é talvez importante assegurar maior atenção ao corpo morto, que é, em última instância, o único traço da nossa existência, quer no mundo quer na linguagem. Em todos os casos, é a partir dos inícios do século dezenove que todos começam a ganhar o direito de ter a sua própria caixinha para a sua própria decadência pessoal. Entretanto, e num movimento oposto, é também a partir dos inícios do século dezenove que os cemitérios começam a ser construídos nas linhas exteriores das cidades. Correlativamente à individualização da morte e à apropriação burguesa do cemitério, emerge uma obsessão pela morte como uma "doença". Os mortos trazem supostamente doenças, e é a proximidade, a presença dos mortos ao lado da igreja, ao lado das casas, quase no meio das ruas, é esta proximidade que propaga a própria morte. Este tema maior da doença espalhada pelo contágio nos cemitérios manteve-se até o fim do século dezoito, quando, e ao longo do século seguinte, os cemitérios foram deslocados em direção aos subúrbios. Os cemitérios tornaram-se assim, não já no imortal e sagrado coração da cidade, mas na "cidade-outra", em que cada família possui o seu tenebroso cantinho de descanso.

Terceiro princípio. A heterotopia consegue sobrepor, num só espaço real, vários espaços, vários lugares que por si só seriam incompatíveis. Assim é o que acontece num teatro, no retângulo do palco, em que uma série de lugares se sucedem, um atrás do outro, um estranho ao outro; assim é o que acontece no cinema, essa divisão retangular tão peculiar, no fundo da qual, numa tela bidimensional se podem ver projeções de espaços tridimensionais. Mas talvez o exemplo mais antigo deste tipo de heterotopias, destes lugares contraditórios, seja o do jardim. Devemos ter em conta que, no Oriente, o jardim era uma impressionante criação de tradições milenares, e que assumia significados profundos e sobrepostos. Na tradição persa, o jardim era um espaço sagrado que reiteirava nos seus quatro cantos os quatro cantos do mundo, com um espaço supra-sagrado no centro, um umbigo do mundo (ocupado pela fonte de água) . Toda a vegetação deveria encontrar-se ali reunida, formando como que um microcosmo. Relativamente aos tapetes persas, estes eram nada mais nada menos do que reproduções dos jardins (o jardim é um tapete no qual todo o mundo atinge a sua perfeição simbólica; e o tapete um jardim que se pode deslocar no espaço). O jardim é a mais pequena parcela do mundo e é também a totalidade do mundo; tem sido uma espécie de heterotopia feliz e universalizante desde os princípios da antiguidade (os nossos modernos jardins zoológicos partem desta matriz).

Quarto princípio. Na maior parte dos casos, as heterotopias estão ligadas a pequenos momentos, pequenas parcelas do tempo - estão intimamente ligadas àquilo que chamarei, a bem da simetria, heterocronias. O auge funcional de uma dada heterotopia só é alcançado quando de uma certa ruptura do homem com a sua tradição temporal. Assim, e ainda com o exemplo do cemitério, verificamos que esta é uma heterotopia particularmente significativa; repare-se: é uma heterotopia que para o indivíduo tem o seu início na peculiar heterocronia que é a perda da vida, e na entrada dessa quase-eternidade cujo permanente fado é a dissolução, o desaparecimento até.

De modo geral, na nossa sociedade as heterocronias e heterotopias são distribuídas e estruturadas de uma forma relativamente complexa. Em primeiro lugar, surgem as heterotopias acumulativas do tempo, como os museus e as bibliotecas. Estes tornaram-se heterotopias em que o tempo não pára de se acumular e empilhar-se sobre si próprio. No século dezessete, porém, um museu e uma biblioteca traduziam uma expressiva escolha pessoal.

 

Bibliote de Dublin                        Biblioteca Nacional

Por contraste, a idéia de conseguir acumular tudo, de criar uma espécie de arquivo geral, o fechar num só lugar todos os tempos, épocas, formas e gostos, a idéia de construir um lugar de todos os tempos fora do tempo e inacessível ao desgaste que acarreta, o projeto de organizar desta forma uma espécie de acumulação perpétua e indefinida de tempo num lugar imóvel, enfim, todo este conceito pertence à nossa modernidade. O museu e a biblioteca são heterotopias típicas da cultura ocidental do século dezenove.

Do outro lado do espectro estão as heterotopias que estão associadas ao tempo na sua vertente mais fugaz, transitória, passageira. Refiro-me ao que assume o modo do festival. Estas heterotopias não estão orientadas para o eterno; bem pelo contrário, são de uma absoluta cronicidade, são temporais. É o que encontramos nas feiras e nos circos, lugares vazios colocados nos limites das cidades que, duas vezes por ano, pululam com barraquinhas, vitrines, objetos heteróclitos, lutadores, mulheres-serpente, pessoas que lêem o futuro nas mãos, entre muitos outros. E um novo tipo de heterotopia temporal surgiu ainda há pouco tempo: as aldeias de férias. Como aquelas aldeias polinésias que oferecem um pacote completo de três semanas de eterna e primitiva nudez ao citadino. Repare-se que, no fundo, esta última reúne as duas formas de heterotopias de que acabei de falar, a heterotopia de festival e a heterotopia acumulativa: as cabanas de Djerba são em alguns aspectos aparentadas com os museus e as bibliotecas. A redescoberta da vida na Polinésia leva à abolição do tempo; mas é ao mesmo tempo uma experiência em que se redescobre o próprio tempo: é como se toda a história da humanidade pudesse rever as suas origens de uma maneira imediata, experienciada.

Quinto princípio. As heterotopias pressupõem um sistema de abertura e encerramento que as torna tanto herméticas como penetráveis. Geralmente, uma heterotopia não é acessível tal qual um lugar público. A entrada pode ser ou compulsória, o que é exemplificável pelas prisões e casernas, ou através de um rol de rituais e purificações, em que o indivíduo tem de obter permissão e repetir certos gestos. Além disso, há heterotopias que são exclusivamente dedicadas a estas atividades de purificação, ritos que são parcialmente religiosos e parcialmente higiênicos como nos hamman dos muçulmanos, ou ritos que são só aparentemente higiênicos, como nas saunas dos escandinavos.

Há ainda outras heterotopias que, ainda que à primeira vista pareçam ser aberturas, servem de forma velada a curiosas exclusões. Todos podem entrar nestes lugares heterotópicos, mas essa é apenas uma ilusão: pensamos que entramos ali onde somos, simplesmente pelo fato de ali termos entrado, excluídos. Estou pensando naqueles quartos que existiam nos casarões do Brasil, e um pouco por toda a América do Sul: a entrada para esses quartos de dormir não era a entrada para a casa em si, a entrada da família; qualquer viajante que por ali passasse poderia abrir a porta e ocupar uma cama e dormir uma noite. Mas esses quartos estavam construídos de uma tal forma que esse indivíduo passageiro nunca tinha acesso livre às partes da casa da família; o visitante era portanto um verdadeiro convidado transitório, não era convidado sequer. Apesar deste modo ter quase desaparecido, poderemos ainda apontar alguns motéis norte-americanos como reminiscências dessa heterotopia. Qualquer homem pode ir no seu carro com a sua amante a esses motéis, em que o sexo ilícito é abrigado mas, ao mesmo tempo, também escondido e isolado. Seja como for, nunca aceite publicamente.

O último traço das heterotopias é que elas têm também uma função específica ligada ao espaço que sobra. Mais uma vez, uma função que se desdobra em dois pólos extremos. O seu papel será ou o de criar um espaço ilusório que espelha todos os outros espaços reais, todos os lugares em que a vida é repartida, e expondo-os como ainda mais ilusórios (parece-me ter sido esse o papel desenvolvido pelos famosos bordéis dos quais fomos privados). Ou então o de criar um espaço outro, real, tão perfeito, meticuloso e organizado em desconformidade com os nossos espaços desarrumados e mal construídos. Este último tipo de heterotopia seria não de ilusão, mas de compensação. Pergunto-me se certas colônias não terão funcionado segundo essa lógica. Em alguns casos, a organização que preconizavam do espaço terrestre desempenhava a função das heterotopias: por exemplo, na primeira leva de colonizadores do século dezessete, das sociedades puritanas fundadas pelos ingleses na América do Norte, e que eram a perfeição do lugar-outro. Também estou a considerar as extraordinárias colônias jesuítas fundadas na América do Sul, maravilhosa e absolutamente organizadas, nas quais a perfeição humana era de fato atingida. Os jesuítas, no Paraguai, conseguiram formar colônias nas quais todo e qualquer aspecto da existência era regulado. A própria aldeia era fundada segundo um plano rigoroso: a matriz seria um lugar retangular, na base do qual estaria a igreja; de um dos lados, a escola, e do outro, o cemitério; à frente da igreja, uma longa avenida que seria cortada por uma outra, transversal; e cada família teria a sua cabana ao longo destes dois eixos. Estava assim reproduzido o símbolo de Cristo, em toda a sua acuidade. A Cristandade delimitava o espaço e a geografia do mundo americano pelo seu símbolo fundamental. A vida do dia-a-dia de cada um era orientada, não por um apito de trabalho, mas pelo sino da igreja. Toda a gente acordava à mesma hora, toda a gente começava a trabalhar à mesma hora; as refeições eram ao meio-dia e às cinco da tarde; depois seguia-se a hora de deitar; e à meia-noite havia o que se chamava despertar marital, ou seja, cada cônjuge cumpria o seu dever regulado pelo toque do sino.

Os bordéis e as colônias são dois tipos extremos de heterotopias. Mas, atenção. Um navio é um pedaço flutuante de espaço, um lugar sem lugar, que existe por si só, que é fechado sobre si mesmo e que ao mesmo tempo é dado à infinitude do mar. E, de porto em porto, de bordo a bordo, de bordel a bordel, um navio vai tão longe como uma colônia em busca dos mais preciosos tesouros que se escondem nos jardins. Perceberemos também que o navio tem sido, na nossa civilização, desde o século dezesseis até os nossos dias, o maior instrumento de desenvolvimento econômico (ao qual não me referi aqui), e simultaneamente o grande escape da imaginação. O navio é a heterotopia por excelência. Em civilizações sem barcos, esgotam-se os sonhos, e a aventura é substituída pela espionagem, os piratas pelas polícias.

Tradução a partir do inglês (com base no texto publicado em Diacritics; 16-1, Primavera de 1986) de Pedro Moura.

Fonte: Virose (www.virose.pt).



Subdesenvolvimento econômico

geography8.gif Saturday, 19 January 08 - 03:04 PM (GMT -04:00)
By Master Santucci in Geografia

O mundo pós-revolução industrial encontrou-se dividido em dois setores opostos, que a boa intenção dos utopistas não conseguiu jamais aproximar: de um lado o extremo da opulência, fundado na mais requintada tecnologia; de outro a pobreza absoluta, decorrente de atividades econômicas primitivas, insuficientes para suprir mesmo as necessidades básicas da população.

Subdesenvolvimento econômico é o estado crônico de inferioridade relativa em que se encontram alguns países, se comparados ao modelo das nações industrializadas. A América Latina, a África e a Ásia são continentes integrados principalmente por países subdesenvolvidos. O quadro econômico-social que caracteriza o subdesenvolvimento inclui, principalmente, produção centrada em poucos produtos primários destinados à exportação, alta concentração da riqueza e da propriedade rural, baixa renda per capita, altas taxas de desemprego e subemprego, baixo nível de consumo e altos índices de mortalidade e natalidade.

Um sistema internacional de relações econômicas, financeiras, políticas e culturais perpetua e reproduz as diferenças entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos. Os países de passado colonial recente e os que iniciaram com atraso o processo de industrialização acabaram relegados à periferia do capitalismo, conformando o que se convencionou chamar terceiro mundo. Estabeleceu-se assim entre ricos e pobres uma nova relação de dependência, derivada diretamente do vínculo entre metrópoles e colônias existente no passado.

O termo "subdesenvolvimento" tornou-se corrente depois da segunda guerra mundial nas comissões para assuntos econômicos da Organização das Nações Unidas. Muitos cientistas sociais, no entanto, fazem objeção a seu uso, que encerraria o mascaramento ideológico de uma condição não-transitória de atraso e dependência. Ainda menos adequada seria, desse ponto de vista, a expressão "em vias de desenvolvimento", que encerra a falsa idéia de um processo de industrialização emergente. Mais correto seria falar em desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo, em que a sustentação e aceleração do progresso de alguns países depende da manutenção de maiores ou menores níveis de atraso em outros.

Economias agro-exportadoras. O traço mais peculiar à economia subdesenvolvida é a predominância do setor primário, isto é, a dependência de um ou de uns poucos produtos de exportação de origem agropecuária ou extrativa. Os preços pagos pelos produtos agrícolas e pelas matérias-primas em geral no mercado internacional são proporcionalmente inferiores aos preços dos produtos industriais. Essa desproporção gera um desequilíbrio entre importações e exportações dos países agro-exportadores: suas exportações tornam-se insuficientes para adquirir os produtos industrializados de que necessitam, inclusive maquinaria para estabelecer sua própria indústria. As nações mais poderosas, de acordo com seus interesses, têm condições de pressionar para baixo os preços internacionais dos produtos primários que compram, jogando com estoques e outros artifícios, e assim impedem as economias agro-exportadoras de acumular excedentes que seriam eventualmente destinados à industrialização.

Para importar produtos manufaturados, serviços especializados ou tecnologia, os países subdesenvolvidos recorrem ao crédito oferecido por bancos e demais instituições financeiras. Dessa forma, o endividamento tornou-se uma das principais características da dependência econômica. O crescimento desmedido da dívida externa agrava o subdesenvolvimento à medida que cada vez maiores recursos são destinados ao pagamento dos compromissos internacionais e desviados, portanto, do investimento produtivo.

Tecnologia e obsolescência. O esforço dos países subdesenvolvidos para a industrialização se vê seriamente limitado por problemas decorrentes do atraso tecnológico. As potências industriais investem somas gigantescas em tecnologia, o que resulta em constante aperfeiçoamento e barateamento de seus produtos. Podem fazê-lo porque dispõem de capitais para investir e de vastos mercados que permitem recuperar com lucros os investimentos. Os produtos industriais dos países mais pobres são, dessa forma, relegados à obsolescência e alijados do mercado, mesmo internamente, se não houver medidas políticas de proteção ao produto nacional.

A importação de tecnologia para diversificação da produção da periferia, que poderia apresentar-se como solução, não raro acarreta conseqüências sociais graves: além do endividamento, a substituição de mão-de-obra por máquinas aumenta o contingente de desempregados, que o setor de serviços não tem condições de absorver, como costuma ocorrer nas metrópoles.

Estrutura interna do país subdesenvolvido. É manifesta, em geral, a solidariedade das classes economicamente dominantes do país subdesenvolvido com os centros econômicos externos. Mediante a aliança com as elites de cada país pobre, a grande indústria internacional se beneficia de mão-de-obra barata e de mercados para seus produtos, disputados às indústrias autóctones.

O modelo de propriedade agrária predominante é o latifúndio improdutivo. Grande parte da população rural desempenha atividades econômicas de subsistência e não participa do mercado. O êxodo rural em busca de melhores condições de trabalho provoca o crescimento desordenado das cidades, que se tornam abarrotadas de mão-de-obra não-qualificada. Os mercados são exíguos e de baixo poder aquisitivo, voltados para produtos de primeira necessidade.

O nível de industrialização e o padrão de vida da população não são os mesmos em todos os países do terceiro mundo. As diferenças regionais dentro de um mesmo país também podem ser agudas: o Brasil, por exemplo, possui uma pujante indústria automobilística e mercado para bens de consumo duráveis. Calcula-se, no entanto, em apenas 15% a parcela da população que consome produtos industrializados.

©Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.



Um novo modelo para a Amazônia

geography8.gif Friday, 02 November 07 - 06:46 AM (GMT -04:00)
By Master Santucci in Geografia

Ignacy Sachs é conhecido como um 'ecossocioeconomista' por sua concepção de desenvolvimento como uma combinação de crescimento econômico, aumento igualitário do bem-estar social e preservação ambiental. Nascido na Polônia, graduou-se em Economia no Rio de Janeiro, fez doutorado na Índia e foi morar em Paris, onde se naturalizou cidadão francês. Foi pesquisador do Instituto de Relações Internacionais na Polônia e tornou-se, em 1957, Secretário para Cooperação Científica e Técnica da embaixada polonesa na Índia.

Em 1968 foi convidado por Fernand Braudel para integrar o corpo docente da hoje École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), onde criou, em 1985, o Centre de recherches sur le Brésil contemporain(Centro de Pesquisas sobre o Brasil Contemporâneo)
, do qual é atualmente co-diretor.

Trabalhou na organização da Primeira Conferência de Meio Ambiente e Desenvolvimento da ONU, realizada em Estocolmo, Suécia, em 1972, durante a qual foi criado o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA).
Foi também conselheiro especial da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro em 1992.

Sachs visitou esta semana a redação do Amazonia.org.
br e conversou sobre desenvolvimento sustentável e Amazônia. Abaixo os principais trechos da entrevista.

Desenvolvimento Sustentável

'O conceito vem sendo criado desde a conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Estocolmo, no ano de 1972. Já estava claro naquela época que a sustentabilidade não deveria ser apenas ambiental, mas também social. Antes de tudo é um princípio de solidariedade com as gerações futuras. Naquela época cunhamos o conceito de eco-desenvolvimento.'

'A viabilidade econômica é apenas um instrumento do tripé. Para atingir o desenvolvimento sustentável será necessário um pacto entre o Estado, os empresários, os trabalhadores e a sociedade civil organizada.' 'No período 1945-75, tivemos alto desenvolvimento econômico e social, mas destruindo o meio ambiente. Também é possível ter crescimento econômico e proteção ambiental, a despeito de não haver geração de empregos. Hoje, no Brasil, temos um déficit crônico de trabalho decente.'

'O termo desenvolvimento sustentável foi apropriado pelos atores econômicos e acabou reduzido ao crescimento econômico. Para que ele seja efetivamente contemplado é preciso haver desenvolvimento econômico, ambiental e social.'

Consumo X Produção

'A equação do desenvolvimento sustentável deve começar a ser alterada pelos padrões de demanda e consumo. Temos de fazer oposição a um mimetismo corrente. Não podemos pensar que haja um modelo de sustentabilidade único, possível de ser implementado em todas as regiões do mundo. Mesmo no Brasil, o padrão de consumo em São Paulo não é aplicável ao interior do Amazonas, por exemplo. O padrão de consumo deve ser adaptável às especificidades de cada lugar.'

'Também é necessário mudar os padrões da oferta e uso dos recursos naturais e econômicos. Isso inclui redesenhar as cidades, melhorar o uso dos transportes, da geração, fornecimento, e aproveitamento energético, criação de novas tecnologias. O último aspecto a ser considerado, são as correções no plano ambiental, no sentido de reverter ou mitigar danos já acontecidos.
'

Amazônia

'Há duas distorções graves quando pensamos na Amazônia. A primeira delas é pensar a região como um problema e não como uma solução. A segunda é ver a região como mera reguladora do clima do planeta em vez de pensar nela como a terra dos povos amazônicos.'

'Lá pode estar o nascedouro de uma civilização baseada na energia da biomassa. Da energia gerada por fotossíntese podemos conseguir alimentos, combustíveis, química verde, fármacos e cosméticos.'

'Precisamos de investimento massivo em conhecimento e na qualificação da mão-de-obra. Em contrapartida, os recursos naturais devem ser usados de maneira eficiente, pois eles são limitados. No caso do Brasil, mais ainda, pois aqui os recursos financeiros são limitados também.

'É possível desenvolver sem desmatar. A área já derrubada é equivalente ao território da França - 600 mil km2 - e seria possível desenvolver uma população três vezes maior do que a população amazônica atual. Mas para
que isso aconteça é preciso rever o modelo de desenvolvimento adotado para a região. A integração na economia globalizada é feita de modo invertido. Trouxemos a indústria eletrônica japonesa para cá, quando deveríamos ter propiciado desenvolvimento para os produtos locais.'

Reservas

'Temos que criar Reservas de Desenvolvimento Sustentável para recuperar e explorar de forma manejada as áreas já desmatadas. Uma maneira de viabilizar esse manejo seria com agricultura consorciada e reflorestamento produtivo. Para obter resultados seria necessário conjugar três fatores: zoneamento ecológico e econômico (ZEE), certificação dos produtos e discriminação positiva dos pequenos produtores.'

'Considero exagerado manter o percentual de 80% de reserva legal na região, além de criar uma unidade de conservação atrás da outra. É fácil criar essas reservas no papel e depois não ter condições de fiscalizar o território'

'O maior risco para a Amazônia é a monocultura. O país já teve experiências danosas com esse modelo desde o período colonial. Pode ser feita uma exploração até mesmo com o plantio de espécies exóticas, consorciadas com outras culturas. A idéia é ter sistemas integrados de produção de alimentos e energia.'

Reforma agrária

'Reforma agrária não pode se restringir a distribuir terra. É preciso repassar conhecimento, estruturas, facilitar o acesso aos mercados e ao financiamento ao pequeno agricultor. O imposto territorial deveria ser progressivo em relação ao tamanho e ao tempo de propriedade. Isso forçaria a produtividade nessas terras e ajudaria os pequenos produtores.'

Expansão da cana

'O cultivo da cana no Pantanal seria extremamente danoso. Para outras regiões, há necessidade de se avaliar caso a caso. Por que não plantar a cana em regiões como no cerrado de Roraima? Com o zoneamento econômico e ecológico poderia ser viável. É mais importante discutir o regime social e ambiental dessa produção do que em qual região do país esse cultivo será efetuado.'


(Fonte: Amazonia.org.br)



Leituras de um mundo sem fronteiras

geography8.gif Saturday, 06 October 07 - 08:51 AM (GMT -04:00)
By Master Santucci in Geografia

“Existe uma inter-relação todo/parte. Ninguém é auto-suficiente. A interdependência cidade/campo. Município/Estado, País/Mundo é um fato. O espaço é continuamente construído e reconstruído segundo padrões desta ou daquela sociedade”.

 

 O cidadão norte americano desperta num leito construído segundo padrão originário do Oriente Médio, mas modificado na Europa Setentrional, antes de ser transmitido à América. Sai debaixo de cobertas de cobertas feitas de algodão, cuja planta se tornou doméstica na Índia; ou de linho ou lã de carneiro, um e outro domesticado no Oriente Médio ou de seda, cujo emprego foi descoberto na China.

Todos esses materiais foram fiados e tecidos por processos inventados no Oriente Médio.

Ao levantar-se da cama faz uso dos mocassins que foram inventados pelos índios das florestas do leste dos Estados Unidos e entra no banheiro, cujos aparelhos são uma mistura de invenções européias e norte-americanas, umas e outras recentes. Tira o pijama, que é vestuário inventado na Índia, e lava-se com sabão que foi inventado pelos antigos gauleses; faz a barba que é um rito masoquista que parece provir dos sumerianos ou do antigo Egito.

Voltando ao quarto, o cidadão toma as roupas que estão sobre uma cadeira de tipo europeu meridional e veste-se.  As peças de seu vestuário têm a forma das vestes de pele originais dos nômades das estepes asiáticas; seus sapatos são feitos de peles curtidas por um processo inventado no antigo Egito e  cortadas segundo um padrão proveniente das civilizações clássicas do Mediterrâneo; a tira de pano de cores vivas que amarra ao pescoço é sobrevivência dos xales usados aos ombros pelos Croatas do século XVII.

Antes de ir tomar seu breakfast, ele vê a rua através da vidraça feita de vidro inventado no Egito; e se estiver chovendo calça galochas de borracha descoberta pelos índios da América Central e pega um guarda-chuva inventado no sudoeste da Ásia. Seu chapéu é feito de feltro, material inventado nas estepes asiáticas. De caminho para o breakfast, pára, para comprar um jornal , pagando-o com moedas, invenção da Líbia Antiga.

No restaurante, toda uma série de elementos tomados de empréstimo o espera. O prato é feito de uma espécie de cerâmica inventada na China. A faca é de aço, liga feita pela primeira vez na Índia do Sul; o garfo é o inventado na Itália Medieval, a colher vem de um original romano.




Geografia - Brasil - Uma Aventura Perigosa

geography8.gif Tuesday, 02 October 07 - 10:13 AM (GMT -04:00)
By Master Santucci in Geografia

Álvaro José de Souza (in memoriam)

 

Turma, sei que todos estão interessados em saber como fui de férias, principalmente porque hoje, meu primeiro dia de trabalho após o retorno, parece que ainda não entrei no ritmo do serviço e, como já me disseram, estou com uma cara de boi sonso, sonado e por fora de tudo o que está rolando.

Claro, minha férias foram maravilhosas, pois fiz exatamente o que gosto de fazer: esqueci por alguns dias de minha casa e de minha família e fui curtir uma aventura no Rio São Francisco. Com um par de amigos tão legais quanto eu – desculpem a falsa modéstia – fomos realizar um passeio genial pelo Velho Chico, percorrendo uma região que antes fazia parte unicamente dos meus sonhos. O problema é que, durante um certo tempo, vivemos uns momentos de pânico e eu comecei a pensar que não voltaria, perdidão naquele “sertão-sem-nada”, sem ao menos ter me despedido dos amigos. Olhe, para dizer a verdade, nem gosto de pensar naquela fase de paura. Mas como sei que Vocês são irritantemente curiosos, vou acabar contando tudo tintim por tintim.

Bem. Saímos daqui de São Paulo, eu e meus dois amigos, num jipão de dar inveja. Um modelito 57, com cara de século XIX mas com pinta de nave espacial, todo colorido, com predomínio do amarelo; um charme total, “chique no úrtimo”.

Fomos pela Anhanguera até Ribeirão Preto, fazendo reza brava para que a Polícia Rodoviária não deitasse o olho em nós; não é por nada: nosso jipe estava legal, mas eles não entendem certas coisas.

De Ribeirão, numa tirada só fomos até a divisa de Minas por São Joaquim da Barra. Atravessamos o Rio Grande no final da tarde e vimos um maravilhoso por-do-sol e ainda tivemos fôlego para esticar o caminho até Uberaba e Patrocínio, onde montamos nossas barracas para dormir, não sem antes comermos um churrasquinho legal, feito com a carne que levamos acondicionada numa geladeira de isopor. Comemos prá valer, já que não havíamos almoçado e tínhamos nos contentado com uns salgadinhos que beliscamos aqui e ali nos postos da estrada.

Patrocínio foi só o merecido repouso, pois, no dia seguinte, às 10 horas já estávamos em Patos de Minas, comendo o estradão. Naquele dia, esticamos até Pirapora, onde chegamos as duas da tarde para almoçar num lugar que era um verdadeiro rancho à beira do Rio São Francisco. Estava emocionado por ver o Velho Chico pela primeira vez na minha vida.

Um de nossos colegas, o Xulé, batizado como Renato, o “pezinho mais perfumado deste país”, tinha reservado um barco para equiparmos e partirmos no dia seguinte.

Pirapora, uma cidade muito interessante, fica à frente da famosa represa de Três Marias, da qual passamos a uns 30 km , distante, segundo nos informou o sabido “Negão”, o outro companheiro de viagem, cujo nome oficial é Jefferson.

Tiramos o final da tarde e o início da noite para comprar alguns enlatados, mais carne e algumas outras conservas para a viagem, além de repelentes para insetos, roupas de calor, muita cerveja e alguns produtos de higiene. Nada de excepcional, pois o barco alugado pelo Xulé tinha uma cara de poucos amigos e demonstrava pouca disposição para carregar muito peso. Armamos as barracas na prainha do rio combinando  que faríamos o propósito de partir bem cedinho para curtir as lindas e agradáveis manhãs do Rio São Francisco.

Navegamos dois dias curtindo as belezas do rio e parando para descansar em Januária, no primeiro dia e em Manga, no segundo dia. Manga, sim, esse é o nome de uma simpática e pequenina cidade perto da divisa da Bahia. Por ali, vive gente muito humilde e risonha, apesar da miséria em que vivem. Parece que sorriem de sua própria desgraça. Brasileiros como nós, que deveríamos conhecer melhor para enterdermos porque se diz que somos um país de Terceiro Mundo e nos envergonhamos de quem alardeia que isto ou aquilo em nossas cidades é “coisa de primeiro mundo”! Quem sabe estimularíamos mais a nossa solidariedade e a nossa consciência.

No dia seguinte, partimos bem cedo e, no final da manhã, já estávamos na Bahia, em Carinhanha, onde só aportamos para comprar alguns víveres e algumas bugigangas. Rumamos para Bom Jesus da Lapa, pois se tratava de um trecho longo e queríamos chegar antes que a noite se fizesse presente. Na verdade, chegamos por lá já com a lua em pleno céu e só nos restou montar as barracas e dormir – ou melhor – tentar dormir, com o calor infernal.

Ficamos o dia seguinte em Bom Jesus da Lapa, uma cidade muito visitada por romeiros. Fomos conhecer a gruta do Bom Jesus, onde o pintor português Francisco Mendonça Mar virou frei Francisco da Soledade e viveu sozinho por longo tempo. Uma história com muito sabor, que os locais contam nos mínimos detalhes.

Bom Jesus da Lapa é uma das cidades melhor equipadas da região e nos permitiu comprar uma porção de coisas para nos reabastecermos para o resto da viagem; esta, que terminaria em Casa Nova, na represa de Sobradinho e onde pegaríamos de volta o jipe que deixamos em Pirapora, com um amigo que o levaria para nós até aquela cidade baiana, reconstruída em outro lugar após a inundação realizada pela represa.

Compramos de tudo em Bom Jesus da Lapa, ou melhor, de quase tudo. É que, tanto no dia das compras como na manhã seguinte, quando continuamos a viagem, resistimos a algumas dezenas de vendedores de “carrancas”, um artesanato de caras feias para serem colocados à frente e na traseira do barco para espantar o “Nego d’água”, um preto velho que há séculos vaga pelo rio São Francisco afundando barcos.

Na primeira noite, não passei medo, mas na Segunda, não consegui pegar no sono, preocupado com as “ameaças” de que, se não comprássemos carrancas, poderíamos correr o risco de o barco afundar. Fiquei quieto, entretanto, pois Xulé e Negão pegariam no meu pé direto se soubessem da minha paura.

No dia seguinte, partimos para um das etapas finais, até Barra e Xique-Xique. Dormiríamos nesta última cidade até porque, estávamos na entrada da Represa de Sobradinho. Até que foi uma viagem legal, sendo que duas coisas me chamaram a atenção: a pobreza das populações ribeirinhas, com suas casas de chão batido e a vegetação, a famosa “caatinga”, que é bem mais rica e surpreendente do que aquilo que nos trazem os livros escolares.

Xique-Xique foi a nossa última noite de paz. Mesmo assim, a idéia do “Nego d’água” e da falta das carrancas me atormentou. Parece que já estava prevendo algo. E a encrenca estourou no dia seguinte. Saímos cedinho e logo adentramos na represa de Sobradinho. Lá pelas 9 e meia, com o sol já muito quente, começamos a estranhar o caminho: muitos cipós e pequenos troncos apareciam na superfície da água e tornavam o caminhar do barco muito difícil. Até que, num determinado momento tudo travou. Encalhamos num banco de areia, cheio de galharias e justamente num lugar onde não havia ninguém nas margens. Um verdadeiro deserto de gente.

Caminhando no lodo, enfiando nossos pés na lama, nem sei quanto tempo levamos para chegar à margem mais próxima. Caminhamos longas horas mato a dentro, sem nos alimentarmos e - o pior – sem encontrar uma viva alma. Estávamos literalmente perdidos e impossibilitados de voltar para o barco. Somente quando o sol já se punha conseguimos retornar à beira do rio, mas nem sinal do barco. O jeito foi deitar e “fingir” que dormíamos, pois qualquer barulhinho do mato nos atemorizava. Tenho certeza: era a vingança do “Nego d’Água”, que nos privava inclusive da alimentação.

Foi a noite mais longa da nossa vida. E a manhã seguinte complementou o drama, caminhando trôpegos pela praia enlameada, até encontrar o lugar onde o barco estava encalhado, por volta do início da tarde e sem nada no estômago. Só conseguimos chegar ao barco depois de umas duas horas, para comer o que se achava por lá. O socorro ficou para o dia seguinte e o jeito foi dormir no barco, onde parecia pelo menos que nos sentíamos mais seguros.

Durante o dia não passou por ali barco algum. Estava na cara que tínhamos entrado por lugar errado, só que não tínhamos a mínima referência. Maldita geografia que, na hora em que precisamos realmente não nós dá nenhuma dica. Quanto tempo perdido na escola.

Para encurtar as coisas, somente depois de 3 dias é que conseguimos socorro: cruzou por ali uma pequena canoa com dois pescadores (espécime em extinção por conta das mudanças ambientais que a represa provocou). Gente humilde, mas experiente, admirou-se que tenhamos nos desviado do Rio São Francisco e entrado num braço da represa, que correspondia antigamente à foz do Rio Verde.

Aqueles verdadeiros “anjos da guarda” conseguiram, em pouco tempo, desencalhar o barco, rebocando-o até o Rio São Francisco e fazendo-nos retomar o caminho até Casa Nova ao final da tarde, não sem antes Ter apreciado ao longe as novas cidades de Pilão Arcado e Remanso, cujos antigos sítios foram inundados pela represa.

Finalmente, em Casa Nova devolvemos o barco, retomamos o jipe com o amigo que o conduziu e voltou conosco até Pirapora – um aperto terrível, mas aliviados por tudo de que nos havíamos livrado. Antes, dormíramos em Casa Nova, numa pousada, depois de um banho muito demorado e saboreando um jantar quentinho como há muito não comíamos.

O caminho de volta não teve grandes novidades. Viemos por terra, saindo de Juazeiro e viajando quase 6 dias, mortos de cansaço. Só dá para lembrar alguns lugares que passamos: Senhor do Bonfim, Itaberaba, Jequié, Vitória da Conquista, na Bahia; Teófilo Otoni, Governador Valadares, Coronel Fabriciano, Belo Horizonte, Sete Lagoas, Corinto e Pirapora; até aumentamos o caminho mas, pelo menos, andamos por boas estradas. De Pirapora para São Paulo, o caminho foi o mesmo da ida.

Muito complicado? Tudo bem! Farei um mapinha de todos os nossos trajetos, na ida e na volta, destacando o trecho que fizemos pelo rio, o lugar do drama que vivemos e, finalmente, a nossa volta gloriosa. Amanhã trarei tudo registrado para Vocês.



Brasil - São Paulo - Operários da Modernidade

geography8.gif Tuesday, 11 September 07 - 09:23 AM (GMT -04:00)
By Master Santucci in Geografia

 Álvaro José de Souza (in memoriam)

 

Praticamente cresci e fui criado em São Paulo. Meus familiares vieram para esta cidade quando eu era ainda bebê-de-colo. Meu pai trouxe o pequeno capital que obtivera com a venda de um armazém de secos e molhados em Piracicaba e, com ele, instalou-se na zona leste, bairro da Penha. Era também um armazém, com o qual sustentou a família e “nos estudou”. Hoje, isso seria impossível, pois os supermercados “mataram” o armazém.

Eu segui outro caminho: trabalhei inicialmente numa loja de tecidos do bairro do Tatuapé e depois acabei me fixando no escritório de uma indústria de garrafas térmicas no bairro da Pompéia, onde estou até hoje.

A Penha é um bom bairro, possui um comércio muito diversificado e apresenta preços bem acessíveis, coisa que já não é assim no nosso Shopping, o “cartão de visita” do Bairro.

Na verdade, sempre fiz compras para mim e para minha família no centro da cidade. Hoje, ficou mais difícil, até porque muitas lojas se fecharam ou se mudaram para bairros mais distantes. Dessa maneira, procuro deixar para as finais de semana, no próprio bairro ou, dependendo da urgência que tenho, acabo comprando o necessário no próprio bairro onde trabalho; ali, no entanto, os preços são um pouco menos atrativos.

Atualmente, perdemos muito tempo na condução; ainda bem que, com o metrô, as coisas melhoraram um pouco, pois os congestionamentos atrasam muito o nosso deslocamento. No metrô, suportamos a lotação do mesmo mas podemos chegar mais rápido.

Mas, apesar disso tudo, só posso agradecer aos céus pela fortuna de ter um emprego fixo a mais de 20 anos. Na época em que, por indicação de amigos, consegui o posto na fábrica de garrafas térmicas, empregar-se era muito fácil; bastava ter estudo e um pouco de sorte. Hoje, o fantasma do desemprego aterroriza a todos e eu – por que não? – também não posso me sentir absolutamente seguro. Por isso mesmo, sacrifico algumas das poucas horas que tenho para a família à noite e estou constantemente me aperfeiçoando: inglês, computação, técnicas de vendas...Ainda bem que há boas escolas no bairro.

Voltar para a casa altas horas da noite, é hoje muito problemático; corremos o risco de ser assaltados e até mesmo de enfrentar problemas maiores. Eu mesmo já fui vítima de dois assaltos no bairro; só que hoje a coisa está cada vez pior e acontece em toda cidade. Certamente, o desemprego tem muito a ver com isso.

Uma coisa realmente me deixa triste: só me restam os finais de semana para dar atenção à família: o problema é que as opções de lazer reduziram-se muito em São Paulo e a televisão acaba nos “trancando em casa” até nos belos domingos de sol. Cinema? Só os de shopping: é preciso torcer para que haja um bom filme. Restaurante, para almoçar com a família? Uma vez por mês, para não desestruturar o orçamento. Passear nos parques já não é uma boa opção, pois os mesmos estão muito mal cuidados. O centro era um lugar onde havia tantas atrações; hoje, à noite e nos finais de semana, vira um deserto, pois ninguém mora lá e não há movimento dos dias em que o comércio permanece aberto, os bancos e os escritórios que lá funcionam e as pessoas vão à cidade. Foi-se também o tempo em que se podia praticar esporte nos campos de várzea, que as marginais do Tietê e do Pinheiros fizeram morrer.


Por João Santucci



Brasil - Por um prato de comida

geography8.gif Tuesday, 11 September 07 - 09:17 AM (GMT -04:00)
By Master Santucci in Geografia

  Álvaro José de Souza (in memoriam)

  

Do Nordeste para cá havia a ilusão de uma vida melhor. Tudo deu errado: São Paulo não tinha mais emprego e nem era uma cidade tão rica quanto pensávamos eu, a mulher e seis filhos, dois ainda de colo. Ricos são apenas os donos dos prédios cheios de luxo, das lojas com vitrines maravilhosas, nas ruas e nos shoppings. No mais, tudo é uma luta sem fim, onde poucos vencem e muitos se danam.

Estamos por aqui há mais de sete anos – nem me lembro exatamente o quanto. No início, ainda deu para trabalhar como servente de pedreiro em algumas construções, prédios muito bonitos espalhados por vários lugares da cidade. Morávamos em alojamentos eu e meus dois filhos maiores; a patroa e os pequenos viviam da bondade dos amigos que também sofriam igual a nós, que se apertavam com eles em quartos que eram alugados em palacetes abandonados no centro da cidade.

Nunca pude estudar e jamais deu para fazer meus filhos estudarem. Por isso, tudo foi ficando ainda mais difícil e quando o trabalho foi ficando impossível, o jeito foi pegar a família e ir morar em baixo de um viaduto, onde, ao menos, temos um chão, uma cobertura e ficamos protegidos da chuva. Bendita cidade que tem tantos viadutos, tanto lugar para receber o pobre.

Moro perto do centro da cidade, lugar com muito movimento a qualquer hora do dia e da noite; carros, ônibus e caminhões passam a todo momento, mostrando a riqueza tão próxima, mas que foge do alcance de nossas mãos. Ela fica do outro lado da vitrine, no interior das lojas, no interior dos carros. E nós, como tantos outros, só podemos olhar.

Mas esta cidade é mesmo incrível: enorme, cheia de prédios, de ruas, de avenidas, cheia de gente. Não dá para Ter idéia da sua grandeza, pois ela vai muito além de onde nossos olhos podem enxergar. Aqui, apesar de tudo, vivemos em paz: as pessoas passam por nós sem nos perguntarem quem somos ou para onde vamos. Ás vezes, a polícia faz isso, nos expulsa do lugar onde moramos, nos enxota; mas são só eles. Há aqueles que parecem gostar de nós, deixando na rua colchões, camas, latas e tanta coisa útil: uma riqueza que jamais encontrávamos em  nosso lugar de origem, no Nordeste.

Com a riqueza das ruas, consegui construir um carrinho com dois pneus; com ele, sou catador de papel, vidros e madeira. Trabalho o dia todo para vender isso num ferro velho distante 4 léguas daqui, mas que me garante o prato de comida para mim e para a família todos os dias, preparado num bar próximo daqui. Quando o dinheiro falta, temos que distribuir um só prato entre 2 ou 3 e, com isso, vamos tocando a vida.

Voltar para o norte! Nem pensar! Além de não termos dinheiro para isso, esta é uma cidade abençoada. As pessoas põem na rua tudo o que não querem mais e isso mostra que estamos num lugar muito rico onde até mesmo os pobres têm vez. Não fosse a polícia, ninguém nos incomodaria, mas, como isso não é todo dia, até não é problema maior. O engraçado é que, mesmo assim somos importantes, pois há muita gente, rica, fina e bem vestida que foge de nós: afinal de contas, somos alguém e até chegamos a preocupar os outros. Por isso, amo esta cidade e penso que ela nos respeita.


Por João Santucci



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